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PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JORGE CARLOS FONSECA NA APRESENTAÇÃO DA OBRA "SILVENIUS - ANTOLOGIA POÉTICA", DE ARMÉNIO VIEIRA!

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PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JORGE CARLOS FONSECA NA APRESENTAÇÃO DA OBRA "SILVENIUS - ANTOLOGIA POÉTICA", DE ARMÉNIO VIEIRA!

O Presidente da República, poeta, Jorge Carlos Fonseca e o o jornalista Nuno Rebocho, foram os oradores na apresentação do livro SILVENIUS - ANTOLOGIA POÉTICA, de Arménio Vieira, que teve lugar no Auditório do BCA, em Chã de Areia, cidade da Praia, no dia 21 de outubro, pelas 18H30.

Leia um extracto da apresentação do poeta Jorge Carlos Fonseca

....Diz o poeta que já se não lembra do nome de todas as mulheres objecto da sua afeição (MULHERES pp. 57-58), Foram tantas, já não sei quantas! Estremeço quando oiço/ o nome de certa for,/ ai Violeta, meu amor!/ Foi um beijo e nunca mais./ Só marias foram treze/ houve júlias e julianas,/ joanas e joaquinas,/ foram tantas, já não sei quantas!/ por certo fruto de uma vida longa e preenchida, mas tal não importa qualquer tipo de coisificação do género feminino (veja-se o que vai dito a p. 30, a propósito de “Lolita”). Muito pelo contrário, a mulher é central na poética “vieiriana”, sublimada como ser de inteligência e capacidades sensoriais superiores. “Será que ainda pode amar/ quem já viu tanto mar?” (p. 58). O que não exclui que seja – ao menos, na veste de poeta – um romântico mitigado (ou dono de um romantismo pessimista?), ficando, neste aspecto, longe da fúria de um ET, um camoniano tomado pelo tom quase invariável da efemeridade das cousas.. (C-L-E-P-S-I-D-R-A, a minha vida e a/tua, gota a gota, e por fim nenhuma./A que mais dói? Para quê lembrá-la, ou na/dor me refugiar, se cada dor sentida é ónus/que se paga em rigorosa data? Que adianta/recordar amores, acaso sonhos, não mais/que fumo? Que importam os jardins/perdidos, para quê lembrá-los, se em cada/momento há uma flor que morre?»/ «Coisa Efémera: Menos que a chama de um fósforo/é quanto dura o teu orgasmo// À tua coleção de vidas breves/acrescenta o amor/e a borboleta»)

[Alguém me terá sugerido que este poema terá ido beber ao simbolismo de  Pessanha ou directamente a Baudelaire]

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Arménio Vieira não escreve sozinho. Só os grandes vultos da cultura, na sua originalidade, não esquecem que também “somos os livros que lemos”, no exacto momento da nossa vida em que o fazemos. Tenho dito e repito que Arménio Vieira leu tudo o que havia para ler. Leu, creio,  tudo o que um bom poeta deve ler, estudou filósofos (filosofia de que desdenha, num exercício de sarcasmo divertido, lúdico, como é timbre permanente da sua forma de ser poeta[1]). Leu, digeriu, fruiu, recriou, inventou. A Bíblia, Schopenhauer, Shakespeare, Char, Blake, Claudel, Hölderin, Heidegger, Camões, Pessoa (e todos os seus heterónimos), Maiakovski, Neruda, Pound, Eliot, Whitman, Jiménez, Tzara, Goethe, Baudelaire, os surrealistas quase todos, Sartre, Borges, Borges, Borges, Poe, leu tudo. (uma confissão, aliás: «Canto das graças», pag. 50, poema dedicado a JLB, «de quem herdei o mote, se é que ainda pode ler quem já tudo leu».[Curiosamente, para Arménio Vieira – neste caso bem ao jeito peculiar de outro grande poeta cabo-verdiano, JV – em Cabo Verde há 4 autores que «tudo leram». Ele que cite os nomes, se assim quiser].

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Arménio Vieira é seguramente conhecedor profundo de todos os infernos (de Dante, de Rimbaud, de Strindberg, o dele prórprio AV), incluindo o autêntico, Hades e Sheol, Di Yu, Helgardh ou Ne no Kuni e Yomi no Kuni. Bem que o poeta assevere que o inferno é só um , os suplícios é que mudam (pp 95). [Seja qual for a câmara/e a cor do martírio,/nada porém obsta/ a que grites, até podes injuriar/quem te pôs na fogueira.]. Tremenda consolação, para nós penitentes, Arménio Vieira!

Arménio Vieira não terá nunca precisado de ser um «... espião disfarçado na infância e na adolescência». Ter-lhe-á bastado ouvir Caeiro («eu nunca guardei rebanhos»), entrever quem terá dito «nunca guardei freiras», para proclamar alto e bom som «nunca guardarei versos (in)úteis ou sílabas desentoadas. Veja-se a proclamação/confissão, no primeiro poema da antologia (Jornal Voz di Povo, 1976),  de intolerância face ao «nojo» por trapos e a sua caligrafia sem almas... a pavorosa nomeação de um poema arcaicamente útil a começar do primeiro verso legível e ortográfico passando pelos seus intestinos carcomidos de salitre...» (pág. 15)

Daí a demonstrada admiração por poetas e escritores como Rimbaud, Pessoa, Lewis Carroll, Borges, Espinosa referenciados em  “Canto das graças”, pp. 50-56, Camões, Poe, e o profundo reconhecimento pelo legado greco-latino de Homero a Tróia, de Helena a Heráclito. Poucas divindades dessa época estruturante da nossa história colectiva lhe passam ao lado: é ver desfilar Apolo, Zeus, Cupido, Sísifo, Orfeu…

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Arménio Vieira é dono de uma poesia sofisticada, amassada numa grande erudição, densa no discurso e sua organização, e cuja edificação é conduzida com critérios de gestão e de controlo permanente e magistral do ritmo frásico (diz ele que «as rimas são boas para a música»! ; «versos são simples linhas de prosa cortadas…»!), da sonoridade das palavras, da respiração e das emoções; ele acompanha de perto, de muito perto, exerce perfeita «monitoria» da intensidade das intenções da alma. Nada, nenhum passo, nenhuma progressão é feito sem medida, cirurgicamente fiscalizada, tratada e testada. Diria que ele exerce sempre, e continuamente, um tipo de «sobredeterminação final de um resultado comprovadamente poético, estético.

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Silvenius – Antologia Poética uma obra, mais uma, de Arménio Vieira, e iguais às outras, de muita elevada qualidade estética e literária; de elevada densidade poética, de construção urdida com múltiplas referências cruzadas a conceitos, a eventos históricos, literários e culturais, a personagens, figuras e simbologias estéticas e filosóficas, não é de fácil aproximação. Uma obra e uma poesia que usa em permanência, de forma cruzada, múltiplos instrumentos de estilística literária, também o imagismo, a procura das relações analógicas entre significante e significado, a fragmentação sintática, ao serviço ou, melhor, enformando amiúde o paradoxo, o absurdo de situações, personagens, ritos, mitos e elementos históricos e culturais. Será preciso ter paciência, ser amante, apaixonado(a) pela coisa e pela arte da poesia para se poder interiorizar, digerir e, depois, fruir. Serão precisos algum apetrecho cultural-literário, alguma dose de conhecimento da história e da filosofia, das religiões, dos mitos, da poesia que se fez e se faz no mundo, para se poder apreender o seu fugidio, prolixo e rico sentido. Também oportunidade de aprendizagem do amor pelo poético.

Se me fosse permitido, citaria, a respeito, o que o próprio Arménio Vieira terá (virtualmente?) dito de um outro poeta a propósito de uma obra inexistente: «este poema ou romance irónico é dos que exigem elevada competência literária.. Portanto, “quem tenha ouvidos que oiça”… se puderem, atentem no tecto da capela sistina. Aquilo exigiu paciência e obstinação. Elias Canetti dizit. Ler é uma coisa parecida, é quase como pintar ou escrever».

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Silvenius – Antologia Poética representa o auge da grandeza na criação poética em Cabo Vverde, a reconfirmação de um poeta de excelência com uma maturação literária só acessível aos «grandes», aos privilegiados por sopro divino ou do destino. Arménio Vieira consagra-se desta forma como um dos maiores vultos da cultura cabo-verdiana da actualidade, justamente reconhecido pelos seus pares, dentro e fora de portas. Dele só se pode dizer que é o mais local dos poetas universais, pelo amor intestino à sua terra,  ao clima do suão, que nenhum chapéu-de-chuva protege: “das muitas rosas/ que eu vi em nove ilhas e no resto,/ nunca fui a metade” (p. 96). Se mesmo isto verdade fosse, tranquiliza-te, querido Amigo, tu já conheces o mundo inteiro como a palma das tuas mãos e é o teu País, a tua Língua e a Humanidade que integras que hoje, aqui, te presta homenagem cavada na alma.

(Creio que, a final, Arménio Vieira acredita em almas, e que não morrem antes dos sessenta. Apesar de muitas vezes se interrogar sobre a sua existência – pags. 58: se almas houvesse levaria Eunice para o céu; 121: paz à tua alma (Hélio? Borges?), se é que as almas não morrem antes dos sessenta…, é verdade, meu caro, que há sempre um touro à espreita, porventura uma águia que nos mate. Mas ao. menos, diversamente do tigre(ver poema «Ser tigre», pp.33), haja alma, “tempo na alma” para que se escute a voz que nos fale da morte, ainda que entre o cio e a cópula.)

E se acaso te assaltarem dúvidas a cada momento do teu projecto de futuro, retorquir-te-ei com um dos mais belos hinos à Liberdade que construíste: “não obrigues ninguém a/ gostar do teu salmo nem da flor que tu/ amas.” (p. 129, do poema «As time goes by»). Se tu, Arménio Vieira,  e os editores mo permitissem, na contracapa da antologia, onde se recorta a tua «arte poética», acrescentaria eu: É pela sofisticação do pensamento( e da poesia?) que se salva o mundo.

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[1] Nada mais que um saco de palavras, as quais , não obstante o que parecem, são apenas bolhas de ar com que um suposto ego se foi enchendo…  Tenho por mim que tais intentos d’ alma apenas são um mero olhar… sobre uma estranha pradaria onde passam obscuros cavalos…») - »Sequelas…», 115.

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