Intervenção de Sua Excelência Presidente da República, José Maria Neves, por ocasião do Lançamento do Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica

Minha Senhoras e Meus Senhores,

Cabo Verde encontra-se, hoje, num momento raro da sua história.

Um momento em que a memória e o futuro se encontram.

Um momento em que aquilo que fomos nos interpela sobre aquilo que ousamos ser.

E é precisamente nesse cruzamento — entre história, identidade e visão — que nasce o Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica.

Durante séculos, o Atlântico foi um espaço de dor, de ruptura e de deslocação.

Mas foi também — e talvez sobretudo — um espaço de criação.

Foi aqui que povos, culturas, línguas e saberes se encontraram, resistiram… e se reinventaram.

E dessa reinvenção nasceu a Crioulidade.

Não como resíduo da história.

Mas como uma das suas mais sofisticadas expressões.

Hoje, num mundo fragmentado por identidades rígidas, por tensões culturais e por crescentes incompreensões, a Crioulidade surge como uma proposta.

Uma proposta de humanidade.

Uma proposta de convivência pacífica

Uma proposta de um futuro melhor.

É para dar corpo a essa visão que Cabo Verde acolherá, na Cidade da Praia, de 28 a 30 de maio de 2026, o Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, estruturado em torno de três grandes dimensões complementares: um Diálogo de Alto Nível, uma vertente cultural de celebração e criação, e uma Feira Internacional da Crioulidade, dedicada ao intercâmbio entre países, territórios e comunidades do espaço atlântico.

Cabo Verde assume, com plena consciência histórica, a ambição de se afirmar como Centro do Diálogo Atlântico.

Não por acaso.

Mas porque a nossa identidade foi construída nesse cruzamento.

Porque a nossa história é, por natureza, uma história de pontes.

E porque o nosso futuro depende da capacidade de continuar a edificá-las.

Este Encontro não será apenas mais uma conferência internacional.

Será um espaço de pensamento.

Um espaço de criação.

E, sobretudo, um espaço de compromisso.

Saber, através de um diálogo académico de alto nível, que culminará na Declaração da Praia.

Criação, através da celebração da vitalidade cultural crioula, nas suas múltiplas expressões.

 Compromisso, através da construção de um Fórum Permanente da Crioulidade Atlântica, que assegure continuidade a esta visão.

Mas permitam-me dizer com toda a clareza:

Este Encontro não é apenas sobre Cabo Verde.

Nem sequer apenas sobre o Atlântico.

É sobre o mundo que queremos construir.

É sobre a capacidade de transformar diversidade em força.

De transformar memória em futuro.

E de transformar identidade em ponte.

E é por isso que, sob o signo Edificar Pontes, Construir um Futuro Melhor, escolhemos como símbolo a tartaruga.

A tartaruga que atravessa oceanos sem fronteiras.

A tartaruga que regressa sempre à origem.

A tartaruga que liga, silenciosamente, as margens do mundo.

Tal como a Crioulidade.

Resiliente.

Em movimento.

Profundamente enraizada — e, ao mesmo tempo, universal.

Ao lançarmos este Encontro, não estamos apenas a organizar um evento.

Estamos a iniciar um movimento.

Um movimento de ideias.

Um movimento de ligação.

Um movimento de futuro.

E é neste espírito que dirigimos um convite claro:

  • Aos Estados
  • Às organizações internacionais
  • Às universidades
  • Às empresas
  • Às diásporas
  • A todas e a todos

Para que se associem a esta iniciativa.

Para que participem.

Para que contribuam.

Para que co-construam.

Porque a Crioulidade não se celebra apenas.

Constrói-se.

Projeta-se.

Partilha-se.

E Cabo Verde está pronto para liderar esse caminho.

Muito obrigado.