DECLARAÇÃO DA PRAIA

O Atlântico que Somos: Herança, Diversidade e Futuro

Nós, os participantes do I Encontro da Crioulidade Atlântica, reunidos na Cidade da

Praia, Cabo Verde, de 28 a 30 de maio de 2026:

CONSIDERANDO que as sociedades crioulas emergiram, ao longo dos séculos, de

intensos processos de circulação humana, cultural e histórica no espaço atlântico,

dando origem a novas sínteses culturais, linguísticas, sociais, espirituais, artísticas

e civilizacionais, que contribuíram para a criação de novas identidades culturais;

RECONHECENDO o lugar singular de Cabo Verde, e em particular da Cidade Velha,

Centro Histórico da Ribeira Grande, inscrita na Lista do Património Mundial da

UNESCO, enquanto espaço emblemático da memória atlântica e da emergência

histórica das sociedades crioulas;

LEMBRANDO que, não obstante às adversidades históricas que marcaram a

formação do mundo atlântico, os povos e comunidades crioulas souberam

transformar a diversidade em força criadora, edificando sociedades abertas,

inclusivas, resilientes e culturalmente fecundas;

RECONHECENDO que a valorização das experiências históricas e culturais das

sociedades crioulas constitui um ato de justiça histórica e de restituição de uma

verdade frequentemente marginalizada nas grandes narrativas da Modernidade, e

simultaneamente constitui uma contribuição essencial para a construção de uma

visão mais plural, inclusiva e fraterna da Humanidade, reforçando a cooperação

internacional com enfoque nos princípios de respeito pela dignidade humana e

pelo humanismo universal, consagrados na Carta das Nações Unidas;

AFIRMANDO que a Crioulidade constitui um património vivo da humanidade,

resultante de processos históricos de circulação, adaptação e criação cultural no

espaço atlântico;

SALIENTANDO que as culturas crioulas, pela sua génese histórica marcada que foi

pelo encontro, pela plasticidade cultural e pela capacidade de reinvenção,

possuem um importante potencial de contribuição para a renovação das

linguagens culturais, artísticas, sociais e humanas do mundo contemporâneo;

RECONHECENDO que as experiências históricas de crioulização e convivência

cultural constituem importantes referências éticas e humanas de resistência às ideologias de pureza racial, exclusão, xenofobia e intolerância, contribuindo para a

afirmação da unidade e da diversidade da condição humana e das expressões

culturais para a promoção da paz entre os povos;

CONVICTOS de que, num contexto internacional marcado pelo recrudescimento

da intolerância, exclusão e fragmentação, que insistem em pôr em causa direitos

humanos já consolidados, a experiência histórica das sociedades crioulas e a

interculturalidade oferecem importantes ensinamentos para a construção de um

futuro mais pacífico, plural e solidário;

REAFIRMANDO os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, na Agenda

2030 para o Desenvolvimento Sustentável, na Agenda 2063 da União Africana e nos

instrumentos internacionais de promoção da diversidade cultural, como a

Convenção de 2005 sobre a promoção e a proteção da diversidade de expressões

culturais, do diálogo entre os povos e da dignidade humana.

SUBSCREVEMOS E DECLARAMOS:

I.

DA CRIOULIDADE COMO PATRIMÓNIO VIVO E EXPRESSÃO DA DIVERSIDADE

CULTURAL

– AFIRMAMOS a Crioulidade Atlântica como património vivo da

humanidade e expressão singular da capacidade humana de encontro,

reinvenção e convivência entre povos, culturas e civilizações;

– SALIENTAMOS que as culturas crioulas, longe de representarem

realidades marginais ou periféricas, são elementos centrais da história

atlântica e do património comum da Humanidade;

– RECONHECEMOS as sociedades crioulas como espaços históricos de

encontro, adaptação e criação humana, cuja experiência evidencia a

capacidade dos povos de transformar situações de deslocamento

forçado, adversidade e fragmentação em formas originais de

convivência, cultura e pertença coletiva;

– RECONHECEMOS o contributo das sociedades crioulas para a formação

da modernidade atlântica, bem como para o enriquecimento cultural,

linguístico e humano do património universal;

– DEFENDEMOS uma visão da diversidade cultural fundada no respeito

mútuo, na dignidade humana, na convivência pacífica, inclusão e no diálogo intercultural, enquanto fundamentos essenciais de sociedades

mais abertas, inclusivas e solidárias.

– AFIRMAMOS que a experiência histórica das sociedades crioulas

testemunha a incompatibilidade entre as ideias de pureza racial e a

realidade dinâmica das culturas humanas, reafirmando o valor da

diversidade, da dignidade humana e da convivência entre diferenças

como fundamentos indispensáveis da paz, da fraternidade entre os

povos e do desenvolvimento sustentável.

II.

DA MEMÓRIA, CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA

– REAFIRMAMOS a importância da investigação científica, do pensamento

crítico, da liberdade artística e da interculturalidade e do diálogo

transversal para uma melhor compreensão das dinâmicas históricas,

culturais e humanas que moldaram as sociedades crioulas e o espaço

atlântico;

– DEFENDEMOS a necessidade de promover uma leitura mais plural e

inclusiva da história mundial, capaz de reconhecer o papel das

sociedades crioulas, das diásporas africanas e das circulações

atlânticas na formação da modernidade e do património comum da

Humanidade;

– SALIENTAMOS a necessidade de preservar e valorizar os sítios de

memória e do património, os arquivos históricos, a diversidade de

expressões culturais, assim como os patrimónios materiais e imateriais

ligados às experiências atlânticas e crioulas;

– DEFENDEMOS abordagens educativas e culturais que contribuam para

uma compreensão plural, inclusiva e humanista da história,

reconhecendo o contributo das sociedades crioulas em toda a sua

diversidade, para o património e para a experiência comum da

humanidade;

– RECONHECEMOS que as sociedades crioulas constituem expressões

históricas da capacidade humana de recriar laços, culturas e formas de

convivência em contextos marcados pela mobilidade, pelo encontro de

culturas e pela transformação social.III.

DA CULTURA, JUVENTUDE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

– AFIRMAMOS a cultura, a criação artística e o património das sociedades

crioulas como forças de diálogo, inovação e desenvolvimento

sustentável, contribuindo para a valorização humana, económica,

ambiental e cultural das comunidades atlânticas;

– RECONHECEMOS o papel da juventude na preservação, reinvenção e

projeção contemporânea da Crioulidade, bem como na transmissão dos

seus valores culturais, linguísticos e humanos às gerações futuras;

– REAFIRMAMOS a importância das línguas crioulas, da memória

atlântica, da diversidade das expressões culturais e do património

material e imaterial das sociedades crioulas, enquanto repositórios vivos

de identidade, conhecimento e criação, encorajando o intercâmbio

artístico, académico e cultural entre os povos e comunidades do espaço

atlântico.

IV.

DA COOPERAÇÃO E DIPLOMACIA CULTURAL ATLÂNTICA

– REAFIRMAMOS a importância da cooperação entre Estados, cidades,

universidades, instituições culturais, organizações da sociedade civil,

organizações internacionais e regionais e comunidades das diásporas

ligadas às experiências atlânticas e crioulas, encorajando o

fortalecimento de redes de intercâmbio cultural, académico e

institucional entre os povos e sociedades do espaço atlântico,

nomeadamente através da criação de cátedras dedicadas à crioulidade,

nas universidades de sociedades e países crioulos;

– DEFENDEMOS a diplomacia cultural como instrumento de aproximação

entre povos, promoção da convivência, fortalecimento da paz e

aprofundamento da solidariedade internacional;

– PROPOMOS a criação de mecanismos permanentes de diálogo, reflexão

e cooperação em torno da Crioulidade Atlântica, através da instituição

de um Fórum Permanente dedicado às sociedades e culturas crioulas do

espaço atlântico. E, nesse âmbito, Cabo Verde compromete-se a realizar

a II Edição do Encontro Internacional da Crioulidade do Atlântica, na

última semana de maio de 2028.

PROCLAMAMOS a presente Declaração da Praia como expressão do compromisso

comum de promover uma cultura de diálogo, de respeito pela diversidade das expressões culturais, de cooperação entre os povos e de construção de um futuro

assente na dignidade humana, no conhecimento, na criatividade e na paz.

Adotada na Cidade da Praia, República de Cabo Verde, aos 30 dias do mês de maio do ano de 2026.