Cabo Verde vive hoje um daqueles momentos que confirmam a maturidade das suas instituições e a confiança do seu povo na força da democracia.
As democracias afirmam-se não apenas através das eleições, mas também pela serenidade com que renovam os seus compromissos, pela solidez das suas instituições e pela confiança que depositam no futuro. É precisamente isso que celebramos nesta cerimónia de empossamento do XI Governo da República.
Hoje não toma posse apenas um Governo. Renova-se um mandato de confiança popular. Renova-se a esperança num futuro de progresso e bem estar. Renova-se a convicção profunda de que Cabo Verde continuará a construir o seu caminho de liberdade, justiça social e durabilidade do desenvolvimento.
Permitam-me, porém, começar por uma referência que, nestes dias, transcendeu o universo desportivo para se transformar numa poderosa metáfora nacional.
Refiro-me aos nossos gloriosos Tubarões Azuis.
Há momentos em que uma Nação se redefine. A classificação da seleção nacional de futebol para a Copa do Mundo é, com toda a certeza, um desses momentos. Para muitos, no momento da independência este era um país improvável. 50 anos depois, estamos entre os melhores do mundo. Trata-se, mais do que um evento desportivo, de um redemoinho que vai mexer com as nossas mentes e um fermento de transformações económicas, sociais e culturais. Se o desenvolvimento é um ato eminentemente cultural, esta classificação despoleta em nós, em todos os domínios da vida nacional, a cultura de excelência e de desenvolvimento.
Na passada segunda-feira, perante um dos mais fortes candidatos ao título mundial, a Seleção Nacional escreveu uma das páginas mais inspiradoras da nossa história recente. Não foi apenas um resultado extraordinário. Foi uma demonstração de caráter. Foi a prova de que a ousadia pode superar a dimensão, de que a serenidade e a sabedoria podem desafiar o favoritismo e de que a crença pode transformar o aparentemente impossível em possibilidade.
A história de Cabo Verde sempre foi essa.
Há cinquenta anos, muitos consideravam improvável que um pequeno arquipélago disperso no Atlântico pudesse afirmar-se como um Estado credível, uma democracia estável, respeitada e admirada no concerto das nações. Mas fizemo-lo. Fomos fazendo esse caminho passo a passo, com resiliência, sabedoria, visão e trabalho árduo.
Fomos superando os nossos limites e gerindo improbabilidades.
Foi assim na independência. Foi assim na construção da democracia. Foi assim nos avanços alcançados no desenvolvimento humano. Foi assim nesta extraordinária epopeia dos nossos Tubarões Azuis.
Após esse desempenho histórico, em Atlanta, tive a honra de felicitar pessoalmente a equipa técnica e cada um daqueles jovens que tão dignamente representam a Nação cabo-verdiana. Neles vi refletidos os valores que moldam o povo cabo-verdiano: a resiliência perante as adversidades, a coragem perante os desafios, a determinação de nunca desistir e a serenidade e a sabedoria de fazer bem o que tem de ser feito, em cada momento.
Mas a maior vitória dos Tubarões Azuis talvez não se encontre apenas na classificação para o mundial ou nos resultados alcançados em campo.
A sua extraordinária prestação representa algo mais profundo: a entrada definitiva de Cabo Verde num espaço de excelência mundial. Hoje, a nossa seleção não participa apenas nas grandes competições; compete entre os melhores do mundo e demonstra que pertence a esse grupo.
Esta conquista obriga-nos a refletir.
O desafio que se coloca agora é o de transformar este extraordinário capital simbólico em ganhos concretos para o desenvolvimento nacional. O desporto, tal como a cultura, não deve ser visto apenas como um fator de afirmação identitária. Deve ser encarado como uma poderosa alavanca de transformação económica e social, capaz de impulsionar o turismo, atrair investimentos, gerar oportunidades, reforçar a coesão nacional e projetar a imagem de Cabo Verde no mundo.
Temos de aprender a converter prestígio em desenvolvimento, reconhecimento em oportunidades e talento em prosperidade.
Os Tubarões Azuis mostraram-nos que os limites que muitas vezes aceitamos como inevitáveis existem sobretudo na nossa mente.
Se fomos capazes de chegar a este patamar no futebol mundial, porque não aspirar à excelência na educação, na ciência, na tecnologia, na economia azul, na cultura, na administração pública, na inovação e no empreendedorismo?
Precisamos de Tubarões Azuis em todos os domínios da vida nacional.
Precisamos de cidadãos, empresários, investigadores, professores, artistas, agricultores, pescadores, funcionários públicos e governantes animados pela mesma ambição, pela mesma exigência e pela mesma vontade de superar obstáculos.
Para isso, devemos mobilizar todas as energias da Nação.
As das ilhas e as da nossa vasta e talentosa diáspora.
As do setor público e as do setor privado.
As dos jovens e as dos mais experientes.
A diáspora continua a ser um dos nossos maiores ativos estratégicos. Ela transporta conhecimento, experiência, influência, capacidade de investimento e uma ligação afetiva profunda à terra-mãe. O desenvolvimento de Cabo Verde exige que saibamos aproveitar plenamente esse potencial extraordinário, construindo pontes cada vez mais fortes entre o arquipélago e as comunidades cabo-verdianas espalhadas pelo mundo.
O futuro de Cabo Verde dependerá cada vez mais da nossa capacidade de unir talentos, criar oportunidades e mobilizar todas as forças da Nação em torno de objetivos comuns. Este é tempo de união. O pluralismo inerente à democracia representativa deve ser fonte de entendimentos e de consensos e não canal de fragmentação e polarização. A hiperpolitização do espaço público deve ceder lugar ao diálogo, à negociação, à busca conjunta de soluções para os problemas das pessoas, com os olhos postos na dignidade humana.
As lideranças de que o país necessita neste momento devem ser serenas, confiantes, mobilizadoras e agregadoras. Lideranças capazes de transformar divergências em convergências, desafios em oportunidades e esperanças em realizações concretas.
Num mundo marcado por profundas incertezas, tensões geopolíticas, conflitos armados, desaceleração económica, alterações climáticas, pressões migratórias e rápidas transformações tecnológicas, Cabo Verde enfrenta desafios particularmente exigentes. Nenhum país, sobretudo um pequeno Estado insular, pode ignorar as mudanças que estão a redesenhar o mundo.
Mas também é verdade que nunca tivemos tantas oportunidades ao nosso alcance.
Os Tubarões Azuis já provaram que podemos chegar mais longe do que muitos imaginavam.
Cabe-nos agora demonstrar que essa mesma determinação pode conduzir-nos a novos patamares de desenvolvimento económico, progresso social e afirmação internacional.
Neste mesmo espírito de confiança e esperança, aproveito para renovar as felicitações ao Senhor Primeiro-Ministro pelo êxito alcançado nas eleições legislativas, felicitações que já lhe foram oportunamente transmitidas.
No passado dia 17, o povo cabo-verdiano fez uma escolha inequívoca, soberana e responsável sobre a força política a quem confiar o destino do país nos próximos cinco anos.
Ao longo de mais de três décadas de democracia representativa, os cabo-verdianos têm demonstrado uma notável maturidade cívica e política, avaliando propostas, programas e lideranças num ambiente geralmente marcado pelo respeito pelas regras democráticas e pela convivência pacífica.
Apesar dos desafios que persistem, a democracia cabo-verdiana continua a dar provas da sua solidez.
Reinou o civismo durante a campanha eleitoral e durante a apresentação das diferentes propostas políticas. Contudo, não podemos ignorar a elevada taxa de abstenção registada nestas eleições. Trata-se de um sinal que merece reflexão profunda por parte de todos os atores políticos e institucionais.
É imperativo compreender as razões deste afastamento de uma parte significativa do eleitorado e encontrar formas de reforçar a participação cívica e política dos cidadãos.
É igualmente importante reconhecer que o povo cabo-verdiano revela hoje um crescente grau de exigência, discernimento e maturidade política. Os cidadãos avaliam cada vez mais os resultados, a credibilidade das propostas e a capacidade efetiva de resposta aos seus problemas concretos.
A transição governativa, marcada pelo encontro entre o Primeiro-Ministro cessante e o Primeiro-Ministro indigitado para a transferência de pastas, merece ser destacada como um exemplo de responsabilidade institucional, respeito democrático e sentido de Estado.
Aproveito o ensejo para reconhecer o empenhamento cívico e o relevante serviço público prestado ao país pelo Senhor Primeiro Ministro cessante, Dr. Ulisses Correia e Silva, e todo o seu elenco governativo.
O Governo que hoje toma posse assume responsabilidades particularmente exigentes.
Os desafios são numerosos e complexos. Entre eles, destaco a necessidade de melhorar a conectividade entre as ilhas, reduzir a pobreza, as desigualdades sociais e as dissimetrias regionais, criar mais empregos, garantir mais rendimentos, reforçar a segurança e acelerar a transição energética, melhorar o acesso à água, fortalecer a educação e a saúde, consolidar a justiça e a segurança, reforçar a liberdade de imprensa e modernizar a Administração Pública para que esta seja mais eficiente, mais próxima dos cidadãos e mais orientada para resultados.
Da oposição espera-se igualmente uma atitude responsável, fiscalizadora e construtiva, em conformidade com a vontade expressa pelos eleitores.
É igualmente desejável que sejam rapidamente encontrados os consensos necessários para a renovação e instalação dos órgãos externos à Assembleia Nacional que há muito aguardam por uma solução e sobre os grandes desígnios nacionais.
Reitero toda a disponibilidade do Presidente da República para colaborar, cooperar e apoiar institucionalmente o Governo empossado, nos termos da Constituição da República, preservando o ambiente de normalidade, estabilidade e respeito mútuo que deve sempre caracterizar as relações entre os órgãos de soberania.
Saúdo e felicito os membros do XI Governo Constitucional que acabam de ser empossados, desejando-lhes os maiores sucessos no exercício das suas funções.
Ao Senhor Primeiro-Ministro, formulo votos sinceros de muita saúde, sabedoria e energia para cumprir esta elevada missão de servir Cabo Verde.
Os cabo-verdianos esperam resultados.
Esperam integridade. Esperam visão.
E esperam, acima de tudo, que a política continue a ser um instrumento ao serviço das pessoas e do bem comum.
Tal como os nossos Tubarões Azuis entraram em campo sem receio dos prognósticos, também Cabo Verde deve enfrentar o futuro com confiança nas suas capacidades.
Esta geração recebeu a responsabilidade de conduzir o país numa etapa decisiva da sua história.
Que o Governo tenha a coragem de ousar, a sabedoria de escutar e a determinação de realizar.
Que continue a crescer em cada cabo-verdiano a convicção de que o melhor de Cabo Verde ainda está por construir.
Porque se um povo espalhado por dez ilhas e por uma vasta diáspora conseguiu transformar impossibilidades em conquistas, então não existe desafio demasiado grande para a nossa ambição coletiva.
Se soubermos mobilizar todas as energias desta Nação Global, unir os cabo-verdianos em torno dos grandes objetivos nacionais e acreditar nas nossas capacidades, não haverá meta que esteja fora do alcance de Cabo Verde.