Na verdade, este festival é um espaço de criação. Onde há pensamento, há criação; geralmente conspira-se e põe-se em crise o status quo. Como disse Fernando Pessoa, pela pena de Alberto Caeiro: “Pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove mais.” Ou, então, como disse o poeta Manoel de Barros, no seu poema Liberdade Caça Jeito: “Quem anda no trilho é trem de ferro/sou água que corre entre pedras:/liberdade caça jeito./Procuro com meus rios os passarinhos/Eu falo desemendado.”
Perguntei à Márcia de que Estado era Manoel de Barros, e ela disse-me que é do Pantanal. Fica aqui explicado o poema, mostrando-nos que não devemos ser ferro; precisamos é de ser água, que se adapta entre as pedras.
E Nha Nácia Gomi dizia: “Sima nu kré nu ka podi sta, sima nu sta nu ka podi fika.” Este festival acaba por refletir essa busca permanente, a partir do descontentamento com o status quo, de novos caminhos, novos rios e novos territórios.
Gostaria de manifestar todo o meu imenso prazer e honra por, mais uma vez, estar presente em Santa Maria, nesta oitava edição do Festival de Literatura-Mundo do Sal. Agradeço aos organizadores, nomeadamente à Rosa de Porcelana Editora, pelo convite para este evento literário.
Congratulo-me igualmente com todos os parceiros que, ao longo dos anos, têm contribuído para o sucesso deste festival, em especial através da promotoria da Câmara Municipal do Sal, tornando esta ilha numa centralidade literária no arquipélago e inscrevendo Cabo Verde na rota internacional dos acontecimentos literários.
Enalteço, pois, o papel da Câmara Municipal do Sal, na pessoa do seu Presidente, Dr. Júlio Lopes, da Curadora Científica, Professora Doutora Inocência Mata, do escritor e editor Filinto Elísio e da editora Márcia Souto, da Rosa de Porcelana, pela aventura de dar vida a esta iniciativa de tornar o Sal um dos polos internacionais de reflexão e diálogo sobre a Literatura-Mundo.
A complexidade, a exigência e a qualidade deste certame cultural agregam ao destino turístico que é o Sal novas ofertas de convivialidade e de fruição, sempre nos brindando com um leque variado de propostas: sessões científicas, palestras, diálogos temáticos, reflexões e debates, exposição de livros e de artes plásticas, exibição de documentários, leituras diversas e encontros com estudantes da ilha. Uma movida literária e cultural no chão crioulo de Cabo Verde.
Constatamos que é possível pensar a literatura a partir de novos paradigmas e outros pontos de observação, e é isto que os criadores, promotores e organizadores do Festival de Literatura-Mundo do Sal, desde 2017, vêm propondo a partir de Cabo Verde. Neste ano foi possível reunir, para além de escritores e professores cabo-verdianos, autores, investigadores, editores e tradutores da Alemanha, Brasil, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.
Verifico, com agrado, que é política deste festival, a cada edição, homenagear dois escritores – um de Cabo Verde e um estrangeiro –, procurando estabelecer uma relação dialógica que, ao mesmo tempo, permite iluminar os traços comuns entre as personalidades escolhidas.
É uma tradição que se mantém e percebo isso como um desejo de reencontro do sistema-mundo literário a cada edição.
Congratulo-me com o facto de, nestes quatro dias de trabalho e de convívio, a oitava edição ter ajudado a gizar novos caminhos, a partir do eixo da Literatura-Mundo Comparada, e debater sobre os fazeres literários que desafiam os cânones ao seu alargamento e ao seu recondicionamento.
Aproveito o ensejo para felicitar o Festival de Literatura-Mundo do Sal por, neste ano, homenagear duas figuras importantes: uma na oratura e no cancioneiro cabo-verdiano, Nha Nácia Gomi, e outra na poesia brasileira, com reconhecimento internacional, o poeta Manoel de Barros.
Reconheço tratar-se de um novo olhar, sem oposição disjuntiva entre universal e local, entre norte e sul, entre línguas e culturas, entre literatura e oratura.
Ao centrar esta edição na Poética da Terra, no que tem ela de telúrica e de cosmopolita, assim como ao colocar o ponto de homenagem na cantadeira Nha Nácia Gomi e no poeta Manoel de Barros, fez-se escola. É uma audaciosa sementeira de literatura, oratura e cultura para uma auspiciosa colheita futura.
Por outro lado, este ano de 2026 revelou-se fértil em acontecimentos, pois também estamos a assinalar os 40 anos do Movimento Pró-Cultura, que reuniu autores e fazeres literários com a soberania de Cabo Verde, e assumimo-lo importante, em tempo em que organizámos o I Encontro Internacional da Crioulidade.
Manifesto o meu apreço pela proposição da descentração da leitura dos textos e pela proposta de melhor circulação dos autores e suas obras em plataformas mais democráticas e mais globais.
Afinal, afirma-se aqui que todas as geografias são literárias e, enquanto parte do património criativo universal, são merecedoras de dignidade e de oportunidade.
Esta premissa interpela-nos a olhar a literatura cabo-verdiana de uma perspetiva comparatista e alargada, valorizando os seus traços de identidade crioula e de singularidade insular, assim como os seus pontos de identificação histórico-cultural, sendo condição o seu potencial de diálogo e de complementaridade com outros sistemas literários do mundo.
A literatura cabo-verdiana, sabe-se hoje, é muito mais ancestral do que aquela produzida no século XIX, a partir do qual instâncias de legitimação literária determinaram, como a análise crítica e o reconhecimento académico. Tampouco se polariza em apenas três grandes períodos em torno da importante Geração Claridosa e da Revista Claridade.
Tive a honra de estar presente em São Vicente quando, recentemente, celebrámos os 90 anos desta revista e o anúncio da criação da Cátedra Claridade, pela Universidade de Estudos Internacionais de Roma, em parceria com a Universidade do Mindelo, com intermediação da Rosa de Porcelana Editora.
Quanto a este festival, é de realçar a sua componente científica, sob a curadoria da Professora Inocência Mata, que colocou tónica nos instrumentos de análise comparatista e nos painéis mais analíticos, metodológicos e até epistemológicos, sem hermetismo académico, entretanto, pois trata-se de um festival literário.
É interessante que, a partir de Cabo Verde, mais precisamente da ilha do Sal, em oito edições consecutivas, autores, professores, investigadores, estudiosos, críticos, mediadores culturais e leitores, de várias paragens, refletiram e debateram a circulação mais alargada das literaturas, aferindo, na sua singularidade e diversidade, como dialogam entre si com inteligibilidade universal.
Recordo que, a cada edição deste festival, um escritor cabo-verdiano e outro estrangeiro são homenageados. Em 2017, ano do seu arranque, os preiteados foram o poeta e diplomata Corsino Fortes e o escritor José Saramago, português, o único Prémio Nobel da Literatura em Língua Portuguesa.
De destacar que a 6ª edição celebrou o Centenário de Amílcar Cabral, Fundador das Pátrias de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, poeta e ensaísta, e fez tributo aos Quinhentos Anos do poeta Luís Vaz de Camões. Essa edição de 2024 foi precedida pelo Simpósio Internacional Amílcar Cabral no Sal e sucedida pelo Simpósio Internacional Amílcar Cabral na Universidade de Sorbonne – Paris.
No ano passado, a 7ª edição do festival celebrou os 50 anos das independências de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com trabalhos e homenagens através das gerações literárias dos poetas Agostinho Neto, Onésimo Silveira, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo.
Termino com um bem-haja ao Festival de Literatura-Mundo do Sal. No cair do pano desta oitava edição, formulo votos de longa vida para este projeto criado por Filinto Elísio, José Luís Peixoto, Márcia Souto e Patrícia Pinto, e que teve por mote consolidar a ilha do Sal como centralidade literária em Cabo Verde e inscrevê-la como ilha literária reconhecida internacionalmente.
Estou convencido de que este objetivo foi plenamente atingido. É bom que continuemos a pensar e a incomodar.
Muito obrigado.
