Adis Abeba, 14 de fevereiro de 2026
Excelências,
Senhor Presidente da União Africana,
Caros Irmãos, Chefes de Estado e de Governo,
Senhor Presidente da Comissão da União Africana,
Senhor Secretário-Geral das Nações Unidas,
Senhor Diretor-Geral da UNESCO,
Senhor Presidente do Conselho de Administração do Fundo do Património Mundial Africano,
Distintos Parceiros, Representantes do setor privado africano.
A Água é vida. O Património é Memória. África encerra em si ambos. O tema da nossa Cimeira — «Garantir um abastecimento sustentável de água e sistemas de saneamento seguros para alcançar a Agenda 2063» — interpela-nos coletivamente, tecnicamente, politicamente e moralmente.
O Património Mundial Africano não é um luxo cultural; é uma infraestrutura estratégica. As nossas montanhas protegidas regulam as bacias hidrográficas.
As nossas zonas húmidas filtram e purificam a água. Os nossos grandes ecossistemas florestais estabilizam os ciclos hidrológicos. As nossas paisagens culturais transmitem, há séculos, saberes de gestão sustentável da água e da terra.
Proteger o património é assegurar a água. Assegurar a água é estabilizar as nossas sociedades. Estabilizar as nossas sociedades é edificar o desenvolvimento sustentável.
O meu país, Cabo Verde, é um arquipélago imbuído de cultura e de história. Todavia, conheceu, ao longo dos séculos, graves secas. Aprendemos, por vezes arduamente, que a água nunca é um dado adquirido.
Aprendemos que a resiliência depende do conhecimento, da inovação e do respeito pelos equilíbrios naturais. A nossa experiência ensina-nos uma verdade elementar: a escassez pode tornar-se numa escola de responsabilidade.
Hoje, por ocasião do 20.º aniversário do Fundo Africano para o Património Mundial, afirmamos que o investimento na conservação da memória coletiva é um investimento na segurança hídrica, na resiliência climática e na paz.
Contudo, existe uma outra fonte que urge proteger: a fonte da nossa consciência histórica.
A História Geral de África, impulsionada pela UNESCO, não é um mero projeto académico. É um instrumento estratégico para a construção de uma identidade africana assumida, alicerçada no conhecimento e não em narrativas fragmentadas do passado.
É precisamente para reabilitar o fio de Ariana da nossa memória coletiva que organizarei em Cabo Verde, de 28 a 30 de maio de 2026, um encontro internacional sobre a Crioulidade Atlântica, de forma a celebrar o contributo de África para a humanização do Atlântico.
Desejo contar com os nossos Estados, instituições e setor privado para celebrar esta força da imaterialidade africana.
Como recordava o sábio Amadou Hampâté Bâ: “Em África, um ancião que morre é uma biblioteca que arde”. Não podemos permitir que as nossas bibliotecas imateriais continuem a arder.
Exorto os Estados-Membros a integrarem a História Geral de África nos currículos escolares e convido a União Africana a fazer dela uma referência comum para consolidar a nossa unidade.
Aos nossos parceiros das Nações Unidas e da UNESCO, afirmo: a Prioridade África deve ser também uma prioridade hídrica e patrimonial integrada.
Ao setor privado africano, lanço um apelo: sejam a vanguarda. Investir no património e na segurança hídrica é investir na estabilidade dos mercados e na sustentabilidade do crescimento.
A África que queremos é uma África que protege as suas fontes. As suas fontes de água, as suas fontes de saber, as suas fontes de futuro.Muito obrigado.



