Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Hoje, a voz de África ecoa através da sua memória.
Ao celebrarmos, neste Dia Mundial do Património Africano, o Vigésimo Aniversário do Fundo do Património Mundial Africano, não comemoramos apenas o decurso do tempo.
Celebramos a resiliência de um continente que decidiu assumir as rédeas do seu destino cultural.
O Fundo do Património Mundial Africano nasceu de uma visão audaz: a de que os nossos locais de Valor Universal Excecional não são relíquias do passado, mas motores de dignidade, emprego e soberania nas decisões.
Ao longo de duas décadas, reescrevemos o nosso papel na Convenção de 1972. Passámos de 37 para 46 Estados Partes. Investimos mais de 20 milhões de dólares na formação de uma nova geração de especialistas. Contudo, a nossa missão está longe de estar concluída.
África detém apenas 12% dos bens inscritos na Lista do Património Mundial. É uma estatística que nos deve inquietar.
Mais grave ainda é o facto de 30% dos bens em perigo no mundo estarem situados no nosso continente.
A degradação ambiental, os conflitos armados e a urbanização desregrada são ameaças constantes à nossa herança. Precisamos, por isso, de converter a nossa vontade política em investimento sustentável.
A cultura é o antídoto da barbárie. Na linha do preâmbulo do ato constituinte da UNESCO, “uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”.
No atual contexto de policrise global, onde o diálogo entre as nações parece fragmentar-se, o património oferece-nos uma parcela de paz.
Preservar uma reserva natural ou um monumento histórico é, em última análise, um ato de diplomacia preventiva.
Os locais de património são espaços de encontro, onde a identidade se funde com a tolerância. São santuários onde o reconhecimento do “outro” se torna a base para uma estabilidade duradoura.
É neste espírito de humanismo que Cabo Verde promove o Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica de 28 a 30 de maio de 2026.
A Crioulidade, enquanto fenómeno histórico, ensina-nos a arte da síntese. Ela prova que, mesmo nascidos da adversidade e do exílio, os povos podem forjar identidades universais baseadas na partilha e na coexistência.
Esta iniciativa de Cabo Verde converge plenamente com o espírito humanista Ubuntu, palavra bantu que pode ser traduzida como “humanidade” ou “Eu sou porque nós somos”.
Enfatiza a solidariedade, compaixão e interdependência entre indivíduos. Uma pessoa com o “espírito crioulo”, tal como uma com o “espírito Ubuntu”, está aberta, disponível para os outros e consciente de que pertence a um todo maior.
Ambas defendem que o nosso património, material e imaterial, a memória coletiva africana, é a bússola que orienta o desenvolvimento resiliente das nossas sociedades.
Dirijo-me agora, com particular acuidade, aos nossos parceiros do setor privado, aos filantropos, às Instituições de preservação do Património como a UNESCO e, muito especialmente, aos meus homólogos Chefes de Estado.
A assimetria entre o crescimento dos países africanos na adesão à Convenção de 1972 nesses duas décadas passadas e a fraca representatividade do continente na Lista do Património Mundial não refletem a riqueza da nossa história, mas sim a fragilidade dos nossos recursos e das nossas candidaturas.
É imperativo inverter este ciclo.
Neste esforço, a UNESCO apresenta-se como um aliado estratégico através do seu programa “Prioridade África”.
Esta iniciativa fundamental, que mobiliza financiamento para a salvaguarda do património natural e cultural, deve ser plenamente articulada com as atividades do Fundo Africano do Património Mundial.
É na convergência de esforços entre o multilateralismo da UNESCO e a operacionalidade do nosso Fundo que encontraremos a força necessária para proteger o que é irrepetível.
Contudo, o financiamento não deve ser visto como um ato passivo de conservação.
Apelo à generosidade estratégica dos nossos parceiros do setor privado e dos filantropos.
Sem financiamento autónomo, o impacto das nossas políticas será efémero. Precisamos de parcerias de cinco anos que garantam que as vozes dos nossos jovens e das nossas mulheres continuem a ser ouvidas na gestão dos seus territórios.
Os Estados Africanos devem, no quadro das suas políticas de capacitação, de luta contro o desemprego, suscitar vocações para a preservação do património e investir nos nossos jovens.
Precisamos de programas ambiciosos que convertam o património em Indústrias Criativas vibrantes, capazes de alimentar um turismo cultural e ecológico de excelência.
Quando formamos um jovem na gestão de um sítio ou no design inspirado da nossa ancestralidade, estamos a criar valor económico. Estamos a transformar a memória em prosperidade.
Termino com um apelo direto à responsabilidade financeira.
A preservação da nossa memória coletiva exige um compromisso duplo. Primeiro, ao nível interno, através de dotações orçamentais nacionais robustas para a preservação dos diferentes tipos de património natural e cultural.
Segundo, ao nível regional, através do reforço de Dotação do Fundo do Património Mundial Africano – FPMA. Alcançar a meta de 25 milhões de dólares é um imperativo de soberania.
Apelo a todos os Estados e parceiros: não deixemos que a nossa história seja apagada por falta de investimento. Sejamos nós os patrocinadores do nosso próprio futuro cultural.
O património é o nosso bem mais precioso. Ele é o fio invisível que une os nossos antepassados às gerações que ainda hão de nascer. Sejamos, pois, os arquitetos de uma África que orgulha o mundo pela sua diversidade e pela sua paz.
Muito obrigado.


