Sr. Presidente do Conselho Regional de Guadalupe, Sra. Ministra, Sra. Ministro, Sra.
Vice-Reitor da Universidade de Cabo Verde,
Sr. Presidente da Câmara Municipal da Praia,
Sr. Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago,
Sras. e Srs. Embaixadores e Representantes dos Organismos Internacionais,
Sra. Presidente do Conselho Científico e ilustres membros do Conselho Científico,
Todas as conferencistas e todos os participantes que vieram de todo o mundo.
Permitam-me manifestar o meu grande orgulho, orgulho por ser cabo-verdiano e orgulho por ser Presidente de Cabo Verde. A 5 de julho de 1975, esta nação crioula, africana, atlântica era considerada por muitos como um país improvável. Hoje, 50 anos depois, no momento em que comemoramos os ganhos deste percurso a todos os títulos extraordinários, Cabo Verde é um país possível. Nós não temos ouro, não temos diamante, não temos petróleo, temos apenas as cabo-verdianas e os cabo-verdianos e temos esta “paz di Deus ki na Mundu ka tem”.
Passamos por momentos difíceis na nossa história, desde o achamento das ilhas, foram momentos de sofrimento, de dor, por razões umas humanas, outras até naturais. Foram momentos de muito sofrimento.
Os primeiros encontros foram em muitos momentos dolorosos, mas depois tivemos as secas, tivemos as fomes, tivemos as mortandades e o mais importante é que apesar de todas essas adversidades da história e desta natureza madrasta, conseguimos reinventar uma sociedade que resistiu e que conseguiu construir no meio do Atlântico esta pátria que é símbolo do nosso orgulho. E esta é a distinção de uma nação crioula. A nossa capacidade de resistir, a nossa tolerância, a nossa capacidade de reconhecer a diferença, a nossa capacidade de dialogar, a nossa capacidade de superar e a nossa capacidade de reinventar uma sociedade de homens e mulheres que têm a ambição de serem felizes e este é o grande contributo desta nação crioula
Hoje, cinquenta anos depois, vivemos num mundo complexo, difícil. Estamos num processo de ruptura, de emergência de uma nova ordem. Aparentemente, há uns que, pelo uso da força, com medo desta nova ordem que está a nascer, querem impor-nos as suas regras, querem impor-nos a sua forma de viver através das guerras, do ódio, da violência, da inimizade, porque têm medo do futuro.
Nós, nações crioulas, pela nossa capacidade de resiliência, pela nossa abertura ao diálogo, pelo reconhecimento da diversidade e pela possibilidade de construirmos um futuro de paz, de amizade, onde é possível termos um mundo mais humano, então, nós, sim, somos o futuro e temos de afirmar isso para podermos impor-nos àqueles que têm medo desse futuro. Este é o sentido da crioulidade. Mostrar que há um outro mundo possível e que nós não temos medo daqueles que hoje querem impor-nos, por causa do seu medo, o futuro.
Então, não tenhais medo. Há a possibilidade de construirmos um novo mundo e as nações crioulas podem dar essa contribuição pelo seu exemplo, pelo seu percurso, pela sua história. E Cabo Verde está aqui para provar que é possível.
Então, nestes 50 anos mostramos uma África positiva, uma África com ambição, uma África que quer construir um futuro melhor para todas as suas filhas e para todos os seus filhos. Nós, hoje, somos um país de democracia, de liberdade, um Estado de direito e queremos cada vez mais continuar a trabalhar para afirmar as liberdades, para criar espaços de participação, para controlar o exercício do poder e para construir um país mais próspero, mais moderno, um país com mais oportunidades, um país mais justo e mais inclusivo. E, se cada um de nós fizer o nosso trabalho de casa, se as nações crioulas fizerem o seu trabalho de casa, se a África fizer o seu trabalho de casa, estaremos a dar o nosso contributo para este novo mundo, este mundo de paz, de diálogo, de cooperação solidária para um desenvolvimento sustentável, este mundo mais humano.
E, se outras razões não houvessem, estaremos aqui a justificar a realização deste primeiro Encontro da Criolidade Atlântica. Então, vamos construir e vamos trabalhar na realização deste futuro, vamos ter de iluminar o passado, desvendar todos os meandros, todos os caminhos que nos trouxeram até aqui, como base suficiente para podermos construir um novo futuro para a humanidade e para os nossos países. A melhor forma de repararmos todos os sofrimentos, todas as dores, é nós mesmos trabalharmos para que os cidadãos dos nossos países sejam felizes.
Então, damos o ponto de saída para criarmos este movimento da Crioulidade, sim, de forma afirmativa, queremos criar este movimento para mostrar que um mundo mais humano é possível. E, em 2028, estaremos aqui na última semana para celebrarmos a segunda edição do Encontro da Criolidade Atlântica. Vamos preparar-nos melhor para termos ainda um encontro de maior grandeza.
Mas, todos, todas as nações criolas, as instituições internacionais, estamos todos convidados para participarmos, desde agora, na organização e na realização deste segundo grande encontro aqui em Cabo Verde. Discutiremos depois a periodicidade, discutiremos depois se podemos fazer as edições em vários pontos do Atlântico. Teremos essa oportunidade no segundo encontro, com uma parte política mais forte, convocando decisores políticos para discutirmos e operacionalizarmos melhor essas ideias.
E eu quero aqui assumir alguns compromissos para Cabo Verde. Primeiro, é trabalhar para que, o mais rapidamente quanto possível, consigamos os consensos necessários para a plena oficialização da língua cabo-verdiana E devo dizer-vos o seguinte, eu não sou pessimista relativamente a esta matéria. Geralmente a sociedade está à frente do Estado, das burocracias públicas, dos desentendimentos entre os partidos políticos. Mas há já um grande trabalho feito pelas universidades, os investigadores, os diferentes livros existentes, os dicionários, as gramáticas. Os políticos não conseguem fazer uma campanha eleitoral em português, é tudo em crioulo, na língua cabo-verdiana.
Já se fala no Parlamento e as atas são traduzidas na variedade do deputado que falar no Parlamento. E as igrejas, as missas e os romances já publicados em língua cabo-verdiana. E recentemente a Escola Universitária Católica lançou um projeto de tradução da Bíblia diretamente do grego, hebraico e aramaico para a língua cabo-verdiana.
Até 2033 teremos toda a Bíblia traduzida diretamente das línguas originais para a língua cabo-verdiana.
Imaginem, a música cabo-verdiana, toda ela em língua cabo-verdiana. E a forma como nos emocionamos quando ouvimos a música cabo-verdiana, independentemente da sua variedade.
Todas as artistas, todos os letristas, todos os compositores, todos os cantores expressam-se muito bem na língua cabo-verdiana, que nos une, que mostra a força da nossa língua, a criatividade da sociedade cabo-verdiana. Então, o que falta mais? Falta essa energia, essa força da sociedade para o mais rapidamente quando possível levar os representantes, que afinal são nossos representantes no Parlamento, a darem este salto o mais rapidamente quando possível para oficializarmos definitivamente a língua cabo-verdiana. E vamos trabalhar nesse sentido.
Mas também trabalhar com as nossas universidades e aproveito para agradecer toda a força, todo o apoio da Universidade de Cabo Verde na organização deste primeiro encontro para criarmos uma Cátedra de Crioulidade em cooperação com outras universidades aqui e podermos continuar a fazer os estudos, as investigações para estribarmos mais nos conhecimentos científicos, no melhor conhecimento do nosso país, das outras nações crioulas e podermos assim andar muito mais depressa neste caminho rumo a um futuro melhor que nós desejamos. Vamos também trabalhar neste sentido com as nossas universidades.
E termino agradecendo à Comissão Científica porque trabalharam voluntariamente todos os seus membros e deram um grande contributo para o sucesso desta conferência.
E todos os colaboradores da Presidência da República. Na verdade, quando esses atos acontecem, as pessoas não têm ideia da dimensão da equipa da Presidência da República. É uma pequena equipa e já se diz que os melhores perfumes estão nos menores frascos. É um pequeno frasquinho mas com um bom perfume, que tem conseguido realizar esses eventos muito fortes, muito importantes para Cabo Verde.
Mas para um país crescer, para um país se afirmar, temos que imaginar esse futuro. Então, a nossa ideia é continuar a fazer esse esforço de imaginação para podermos, todos os dias, inventar esse futuro. O que é que nós podemos fazer nós, enquanto cidadãos, enquanto país, para construir esse mundo melhor? Murros de lamentação há muitos. E muitas vezes ficamos a lamentar esse mundo difícil, fragmentado.
É claro que há atores, há quem esteja apostado nessa fragmentação. Nós temos que apostar em outros caminhos. É possível? Claro que é! Se nós conseguimos resistir, conseguimos chegar até aqui, é possível construir esse mundo que nós estamos a imaginar. E é precisamente por isso que as nações crioulas têm de afirmar e dizer “Não! estamos aqui, é possível, mas vamos lutar pelos nossos ideais. Vamos afirmar esse novo mundo que nós queremos construir juntos”. E essa equipa da Presidência, eu queria agradecer-lhes por isso.
E queria agradecer também às câmaras municipais que colaboraram, onde tivemos um grande espetáculo na Cidade Velha, apoiado pela Câmara Municipal da Ilha do Sal. Fomos recebidos pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, este grande centro de memória de todos nós.
E agradecer também ao anfitrião aqui na cidade da Praia, ao Sr. Presidente da Câmara Municipal da Praia.
Agradeço-vos a todas e a todos. E marquem na vossa agenda, última semana de 2028, Cabo Verde será Capital Africana da Cultura e, mais uma vez, Capital Atlântica da Crioulidade.

