Discurso de Sua Excelência Presidente da República  Interina na cerimónia de Encerramento do XIV  Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Senhor Presidente da Câmara Municipal da Praia,

Senhor Secretário-Geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa,

Senhores Representantes da Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia,

Senhor Presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras,

Distintos Escritores, Poetas, Investigadores, Jornalistas, Académicos, Estudantes,

Minhas Senhoras e Meus Senhores, Ilustres Convidados,

Ao chegarmos ao término deste XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, quero começar por dirigir uma calorosa saudação a todos os presentes e expressar o reconhecimento das mais altas instituições da República pela exemplar organização deste importante acontecimento literário e cultural. É justo destacar e louvar a virtuosa parceria entre a Câmara Municipal da Praia, a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, a Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia e a Academia Cabo-verdiana de Letras — instituições que, reunindo vontades, recursos e visão estratégica, tornaram possível mais uma edição deste encontro, que já conquistou um lugar próprio no calendário cultural do nosso país e do espaço lusófono.

É sempre uma honra para a cidade da Praia acolher esta celebração da literatura, da cultura e da língua portuguesa. Ao longo dos anos, este encontro afirmou-se como uma marca distintiva da nossa capital, transformando-se num espaço privilegiado de circulação de ideias, de partilha de experiências e de fortalecimento dos laços que unem os povos que se expressam em português. O seu valor torna-se ainda mais evidente quando recordamos que Cabo Verde se prepara para assumir, em 2028, a condição de Capital Africana da Cultura — distinção que constitui motivo de orgulho nacional e que reforça a responsabilidade de continuarmos a investir na valorização da criação artística, do património cultural e da produção intelectual.

Com efeito, ao longo destes dias, escritores, poetas, investigadores, jornalistas, amantes da literatura e estudantes universitários reuniram-se em torno de uma língua comum e de valores partilhados. Fizeram-no com a consciência de que a língua portuguesa não é apenas um instrumento de comunicação. Ela é também uma herança histórica, um património cultural e um veículo de imaginação, de memória e de futuro. É através dela que milhões de pessoas dão forma aos seus afetos, exprimem as suas ideias, narram as suas vivências e constroem os seus horizontes de esperança.

Quero, por isso, felicitar todos os participantes pela qualidade das reflexões e pelo elevado nível intelectual dos debates realizados. Este encontro confirmou, uma vez mais, a vitalidade da produção literária em língua portuguesa e a extraordinária riqueza das diferentes sensibilidades culturais que compõem o universo da lusofonia. Ao mesmo tempo, permitiu consolidar relações entre autores, instituições e comunidades, contribuindo para um intercâmbio fecundo que enriquece todos os que dele participam.

Ilustres Participantes,

O tema central desta edição, “A Língua Portuguesa como elemento de adaptação num mundo em mudança”, revelou-se particularmente oportuno. De facto, uma língua só permanece viva quando é capaz de acompanhar as transformações do seu tempo, acolhendo novos conceitos, novos conhecimentos e novas formas de expressão, sem perder a sua identidade fundamental. Uma língua é tanto mais forte quanto maior for a sua capacidade de dialogar com a diversidade, de se renovar e de se projetar para o futuro.

É indesmentível que a língua portuguesa constitui, hoje, uma das grandes línguas internacionais. Falada por quase trezentos milhões de pessoas, distribuídas por todos os continentes, representa um vasto espaço humano, cultural, económico e geopolítico. É a língua mais falada no hemisfério sul e uma das línguas de maior crescimento demográfico no mundo. Este património comum deve ser preservado, valorizado e projetado com ambição.

Neste sentido, a comunidade lusófona tem razões legítimas para aspirar ao reconhecimento do português como língua oficial das Nações Unidas. Tal aspiração encontra fundamento não apenas na dimensão demográfica dos seus falantes, mas também na relevância crescente dos países que integram a comunidade de língua portuguesa e no contributo que estes oferecem para o diálogo intercultural, para a paz, para a cooperação internacional e para o desenvolvimento sustentável.

Mas a afirmação da língua portuguesa não pode limitar-se ao plano simbólico ou institucional. É igualmente fundamental reforçar a sua presença nos domínios da ciência, da investigação, da inovação tecnológica e da produção académica. Precisamos de promover o português como língua de conhecimento, capaz de gerar ciência, acolher descobertas e transmitir saberes sofisticados. O futuro de uma língua depende, também, da sua capacidade de estar presente nos laboratórios, nas universidades, nos centros de investigação e nos ambientes digitais onde se produz o conhecimento contemporâneo.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

No caso de Cabo Verde, esta reflexão remete-nos, inevitavelmente, para o pensamento de Amílcar Cabral. Com o pragmatismo, a inteligência e a lucidez que o caracterizavam, Cabral afirmou que a língua portuguesa era “uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram”. Esta declaração, tantas vezes citada, só pode ser plenamente compreendida à luz da sua visão estratégica. Cabral soube distinguir entre a dominação colonial e os instrumentos culturais que podiam ser apropriados pelos povos para a afirmação da sua dignidade, da sua liberdade e da sua identidade.

A história demonstra que a língua portuguesa foi também uma língua de libertação. Foi através dela que muitos intelectuais africanos formularam críticas ao sistema colonial, articularam projetos emancipatórios e deram voz às aspirações dos seus povos. Foi uma língua de resistência, de denúncia e de afirmação.

Em diversos contextos africanos, o português desempenhou, e continua a desempenhar, um papel essencial na construção da unidade nacional. Em países marcados por uma extraordinária diversidade linguística, como Angola e Moçambique, constituiu um instrumento fundamental de comunicação, de coesão e de integração nacional. Também em Timor-Leste, a língua portuguesa assumiu um significado profundamente histórico e simbólico. Durante os difíceis anos de ocupação, tornou-se um importante fator de resistência cultural e política. Posteriormente, desempenhou um papel relevante no processo de recuperação da independência e na reconstrução da identidade nacional do jovem Estado timorense.

Em Cabo Verde, a nossa experiência apresenta características singulares. Entre nós, a maioridade literária antecedeu a soberania política. Antes mesmo da independência, já os nossos escritores e poetas tinham alcançado uma notável maturidade intelectual e artística. A literatura cabo-verdiana afirmou-se como espaço de reflexão sobre a condição humana, sobre os desafios do arquipélago e sobre as aspirações de autonomia e progresso do nosso povo. Nessa trajetória, a língua portuguesa serviu de instrumento de criação, de contestação e de afirmação cultural.

Os nomes maiores da nossa literatura demonstraram que era possível transformar uma língua herdada em património próprio, enriquecendo-a com novas experiências, novas sensibilidades e novos imaginários. A cultura cabo-verdiana soube apropriar-se, criativamente, do português, fazendo dele um veículo de universalidade, sem nunca abandonar as suas raízes identitárias.

É igualmente significativo que, em paralelo com este encontro, esteja a decorrer a Grande Feira do Livro de Cabo Verde, diante da Biblioteca Nacional e no Largo Memorial Amílcar Cabral. Trata-se de uma feliz coincidência, carregada de simbolismo, pois os livros representam uma das mais poderosas ferramentas de emancipação humana. Eles ampliam horizontes, estimulam o pensamento crítico, preservam a memória coletiva e fortalecem a cidadania.

Neste contexto, e ao evocarmos este espaço dedicado ao livro e à leitura, prestamos também homenagem à memória de Amílcar Cabral, figura que nutria um profundo apreço pelo conhecimento. As suas palavras, proferidas ainda durante a luta de libertação, permanecem atuais e inspiradoras, porquanto defendia a criação de bibliotecas, a partilha de livros e o incentivo à leitura crítica e participativa. A sua mensagem recorda-nos que a democracia, o desenvolvimento e a liberdade dependem, de igual modo, da formação de cidadãos informados, conscientes e capazes de pensar por si próprios.

E, num tempo frequentemente dominado pela rapidez da informação e pela fugacidade das mensagens, os livros continuam a oferecer-nos o espaço indispensável da reflexão, da profundidade e da liberdade intelectual. Por isso mesmo, investir na leitura é investir no futuro. Apoiar os escritores é fortalecer a cultura. Promover a literatura é ampliar as possibilidades de diálogo entre os povos.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Ao encerrarmos esta décima quarta edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, fazemos um balanço claramente positivo dos trabalhos realizados. Saímos daqui mais conscientes da riqueza da nossa língua comum, mais comprometidos com a defesa da cultura e mais determinados a fortalecer os laços de amizade e cooperação que unem os países e os povos da comunidade lusófona.

Que as reflexões aqui produzidas continuem a inspirar novos projetos