Discurso de Sua Excelência a Presidente da República Interina nas Celebrações do Dia das Nações Unidas

Senhor Presidente da Câmara Municipal de São Domingos,
Senhora Coordenadora Residente das Nações Unidas em Cabo Verde,
Representantes do Sistema das Nações Unidas,
Parceiros de Desenvolvimento,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Gostaria, antes de mais, de Vos saudar a todos, manifestando a minha alegria por estar neste local tão aprazível, num Município onde me sinto absolutamente em casa, e com uma questão que me é muito cara na agenda: a celebração das Nações Unidas, pelos princípios que defende e pelos valores que propugna.
Celebrar as Nações Unidas é renovar a confiança numa ordem internacional em que a dignidade dos povos e a igualdade soberana dos Estados constituem fundamentos da convivência entre as nações. E para Cabo Verde, esta convicção está profundamente ligada à nossa experiência histórica e às condições em que construímos a independência e o desenvolvimento.
Assim, agradeço à Coordenadora Residente, Senhora Patrícia Portela de Souza, o amável convite que me endereçou, para participar nesta cerimónia, organizada em parceria com a Câmara Municipal de São Domingos.

Com efeito, a escolha de Rui Vaz confere significado especial a esta celebração: aproxima os grandes compromissos internacionais, das comunidades a quem devem servir.


O lema “Somos Melhores Juntos: Celebrar o Passado, Construir o Futuro” encontra expressão concreta neste município. É facto que, em Dacabalaio, dez famílias receberam, em dezembro de 2025, equipamentos de energia solar concebidos pela Universidade de Cabo Verde, em parceria com o PNUD. Neste caso concreto, a associação entre conhecimento nacional e cooperação internacional permitiu responder a uma necessidade quotidiana, através de uma solução produzida no próprio país.
Este exemplo ilustra o sentido mais profundo da nossa parceria: criar capacidades, promover oportunidades, e alargar as possibilidades de uma vida digna.

Caros Convidados,
Ao longo de mais de cinco décadas, a relação entre Cabo Verde e as Nações Unidas acompanhou as sucessivas etapas do nosso percurso nacional. Às primeiras respostas às necessidades alimentares e sanitárias, seguiram-se o fortalecimento das instituições, a formação de recursos humanos e o apoio a políticas públicas progressivamente mais exigentes.
Será, por isso, justo assumir que os progressos alcançados são fruto do esforço do povo cabo-verdiano, e das suas Instituições, num percurso que tem contado com o valioso contributo das Nações Unidas e dos parceiros internacionais.
E esta cooperação tem permitido consolidar capacidades nacionais, e dar continuidade às transformações que o País ambiciona e merece.
A este propósito, cabe-me recordar a eliminação do sarampo e da rubéola, verificada em 2025, e, ainda, o reforço da aprendizagem inclusiva, para crianças com necessidades educativas especiais. Essas realizações, que têm um valor que ultrapassa qualquer indicador, traduzem-se em vidas protegidas, em direitos concretizados e na melhoria de condições para que cada criança desenvolva as suas capacidades.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Assinalamos o 81.º (octogésimo primeiro) aniversário das Nações Unidas, num tempo em que os seus princípios fundadores estão a ser sujeitos a uma prova particularmente severa. As guerras, o sofrimento das populações civis, e a persistência de crises humanitárias interpelam a consciência coletiva e a capacidade das instituições internacionais para assegurar o cumprimento do direito.


Para os pequenos Estados, o respeito pelas regras internacionais constitui uma garantia essencial de soberania! E a verdade é que, quando essas regras são enfraquecidas, reduz-se também a possibilidade de participarmos, em condições de igualdade, nas decisões que determinam o nosso futuro.
É, também por isso, que Cabo Verde permanece firmemente comprometido com o multilateralismo, com a resolução pacífica dos conflitos e com a defesa da Carta das Nações Unidas. Queremos uma Organização capaz de responder às exigências do presente, com instituições representativas, meios adequados e maior eficácia na concretização dos compromissos assumidos.


E, considerando a natureza do nosso Arquipélago, é crucial assumirmos que a questão climática evidencia, de forma particularmente clara, a necessidade dessa resposta coletiva.


Efectivamente, para um pequeno Estado insular em desenvolvimento, uma seca prolongada ou um fenómeno meteorológico extremo, pode comprometer os meios de subsistência e a preservação de infraestruturas, e tem o potencial de fazer perigar conquistas sociais acumuladas durante décadas.
Neste sentido, entendo que, por uma questão de justiça, as condições de acesso ao financiamento devem reconhecer esta vulnerabilidade. A avaliação das necessidades dos nossos países exige que se considere a exposição aos choques, a capacidade de lhes responder e o esforço necessário para preservar os progressos alcançados.


Consequentemente, investir na adaptação e na prevenção permite proteger vidas e evitar que a reconstrução absorva recursos indispensáveis à educação, à saúde e à criação de oportunidades.
Por tudo isso, a cooperação deve apoiar uma transformação económica que amplie as capacidades nacionais. A economia azul, as energias renováveis e a inovação digital oferecem possibilidades importantes, cujo alcance dependerá da sua ligação ao emprego digno e ao desenvolvimento das comunidades.


Neste âmbito, o Quadro de Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável 2023–2027 oferece uma base para aprofundar este trabalho. Entretanto, e na preparação do próximo ciclo, importa valorizar a experiência adquirida e reforçar intervenções integradas, capazes de produzir resultados duradouros em todas as ilhas e municípios.
O princípio de não deixar ninguém para trás exige atenção às desigualdades que os resultados nacionais, por vezes, não permitem discernir.


Exige conhecer as dificuldades de quem vive longe dos serviços, impõe conhecer a labuta das mulheres sobrecarregadas pelo trabalho de cuidados, demanda estar ciente dos constrangimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência, e pelos jovens que procuram uma oportunidade para construir o seu futuro.
Exige olhar muito para além dos números, dos dados e das estatísticas.
Exige conhecer a realidade em profundidade, para conhecer toda a história, que, por vezes, os números não conseguem traduzir.
É perante essas realidades que devemos aferir a qualidade do desenvolvimento.

Senhora Coordenadora Residente,
Ao felicitar as Nações Unidas, presto homenagem aos profissionais das suas agências, fundos e programas, e a todos os parceiros que contribuem para esta obra comum.
Cabo Verde continuará a participar na vida internacional com a experiência de um país que conhece o valor da solidariedade e assume as responsabilidades da cooperação.
Honremos o percurso realizado através de uma parceria cada vez mais capaz de fortalecer as instituições, de valorizar o conhecimento, e de ampliar a liberdade das pessoas para conduzirem a própria vida.
É esse o futuro que nos cabe construir, juntos.


Muito obrigada!