Discurso de Sua Excelência Presidente da República, Dr. José Maria Neves, por ocasião da Sessão de Abertura Solene do Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica

Excelências

Digníssimos Convidados,

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Há momentos em que os povos se reúnem para recordar o passado.

Há outros, mais raros, em que se reúnem para refletir sobre aquilo que a sua experiência histórica pode oferecer ao futuro. Creio que é este o sentido mais profundo do Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica, que nesta data inauguramos.

A Crioulidade continua a suscitar leituras diversas. Para uns, ela representa uma extraordinária experiência de encontro entre povos e culturas. Para outros, permanece inseparável das desigualdades, da violência, das dores, dos sofrimentos e das adversidades que marcaram a construção histórica do mundo atlântico.

Não estamos aqui para escolher entre uma narrativa e outra. Estamos aqui para compreender uma realidade mais profunda: a extraordinária capacidade humana de transformar as adversidades da história em novas formas de criação cultural, pertença coletiva e convivência; de fazer nascer, da dispersão dos povos e dos encontros e choques entre diferentes mundos, línguas, culturas e saberes, novas formas de ser, de viver e de imaginar o futuro.

É essa capacidade de reinvenção humana que hoje nos reúne. E confere a este Encontro um significado que transcende largamente a reflexão académica. Porque este é, em muitos aspetos, mais do que um encontro.

É um reencontro.

O Professor Pierre-Joseph Laurent, no seu livro A Crioulização: A Invenção de Cabo Verde, refere-se ao “encontro desigual”, do percurso inicial. Séculos depois, queremos que este seja um reencontro de iguais.

O reencontro de povos, culturas, comunidades e diásporas ligados por séculos de circulação, intercâmbio e criação no espaço atlântico, que hoje convergem, num dos seus mais emblemáticos lugares de memória, para refletir sobre o legado que herdámos e o futuro que desejamos construir.

A valorização das experiências históricas e culturais das sociedades crioulas e das diásporas atlânticas constitui um imperativo de justiça histórica e de reconhecimento de contributos, vozes e experiências que durante demasiado tempo permaneceram à margem das grandes narrativas da modernidade.

Este Encontro inscreve-se, por isso, num esforço mais amplo de restituição da pluralidade da experiência humana e de valorização das múltiplas contribuições que moldaram o mundo contemporâneo, lembrando-nos que nenhuma civilização, nenhuma cultura e nenhum povo detêm o monopólio da criação, da inovação ou do progresso humano.

Vivemos numa era de ruturas e ambiguidades. O mundo está caótico e a humanidade muito vulnerável. Os extremismos, a violência, as guerras geopolíticas e geoeconómicas, a fragilidade do multilateralismo e o desrespeito pelo direito internacional, as mudanças climáticas e as crises sanitárias colocam-nos numa posição de desamparo, angustia e incertezas.

Que este reencontro seja oportunidade para abrirmos, iluminados pela resiliência, tolerância e capacidade de criar e de inovar das nações crioulas, um amplo movimento que propugne o diálogo, a paz, a irmandade, o bem comum e a dignidade da pessoa humana. Um movimento por um mundo desracializado, sem violência e mais humano. Um mundo de igualdade dos termos de intercâmbio, para usar uma feliz expressão de Achille Mbembe, entre povos, estados e nações.  

As Nações Crioulas antecipam o futuro de liberdade, de humanismo e de cooperação solidária. Este é o futuro que queremos!

Ao refletirmos sobre a Crioulidade Atlântica, não estamos a falar de uma realidade periférica. Estamos a falar de uma experiência que ocupa um lugar relevante na compreensão da história do Atlântico e das múltiplas correntes humanas, culturais e civilizacionais que contribuíram para moldar o mundo contemporâneo.

Cabo Verde participa nesta reflexão com a humildade de quem não reivindica exclusividades, mas também com a consciência de que a sua história ocupa um lugar singular na experiência atlântica. Pela sua posição geográfica e pela sua trajetória histórica, o arquipélago constitui um dos espaços onde se cruzam, de forma particularmente expressiva, muitas das dinâmicas humanas, culturais e civilizacionais que moldaram o mundo atlântico.

É precisamente essa herança que nos convoca à responsabilidade de preservar a memória, compreender a sua complexidade e transmiti-la às gerações futuras.

Preservar esta memória é preservar a própria diversidade da experiência humana. É garantir que as gerações presentes e futuras possam compreender não apenas o que aconteceu, mas também a complexidade dos processos históricos, culturais e civilizacionais que contribuíram para formar as sociedades do Atlântico.

É por isso que lugares de memória como a Cidade Velha, berço da nação cabo-verdiana e Património Mundial da Humanidade, assumem um significado que ultrapassa largamente as fronteiras nacionais. Mais do que património de um país, constituem espaços de memória e reflexão sobre processos históricos que ajudaram a moldar o mundo atlântico e a própria condição humana.

Como nos recordou Aimé Césaire, “a nossa visão do Universal não deve ser uma diluição de identidades, mas sim um universal rico de todos os particulares”. Talvez resida aí uma das mais importantes contribuições da experiência crioula para o nosso tempo: a demonstração de que a universalidade não se constrói pelo apagamento das diferenças, mas pela capacidade de as reconhecer, valorizar e colocar em diálogo.

Num mundo cada vez mais interdependente, mas simultaneamente confrontado por novas formas de fragmentação e fechamento identitário, esta é uma lição de particular atualidade. Não porque a experiência crioula ofereça respostas simples para desafios complexos, mas porque nos recorda que a riqueza da humanidade reside precisamente na sua diversidade e na capacidade de construir sentido comum sem negar a pluralidade das suas origens, memórias e identidades.

Mas a memória não se preserva apenas através dos monumentos, dos arquivos ou dos lugares históricos. Preserva-se também através do conhecimento, da educação e da transmissão entre gerações. Conhecer o passado não significa permanecer prisioneiro dele. Significa adquirir os instrumentos necessários para compreender o presente e construir o futuro.

Neste esforço, iniciativas como a História Geral de África assumem particular relevância. Elas contribuem para uma compreensão mais plural, mais inclusiva e mais rigorosa da experiência humana, devolvendo visibilidade a contributos e trajetórias que ajudaram a moldar o mundo contemporâneo.

Mas existe ainda um património mais vivo, mais íntimo e mais quotidiano. Um património que não habita apenas os monumentos ou os arquivos, mas também a palavra, a oralidade, a música, a memória coletiva e as formas de expressão que atravessam gerações.

Refiro-me às línguas crioulas, nas suas múltiplas variantes e expressões atlânticas, que constituem um dos mais notáveis testemunhos da criatividade cultural das sociedades crioulas.

Nelas vivem histórias, imaginários, formas de conhecimento, expressões artísticas e modos singulares de compreender e habitar o mundo. Nelas sobrevivem memórias de deslocações, encontros, adaptações e reinvenções que continuam a marcar profundamente a identidade de milhões de pessoas em diferentes geografias do espaço atlântico.

Proteger, valorizar e estudar estas línguas não significa apenas preservar um património cultural. Significa assegurar a continuidade de formas únicas de memória, criação e transmissão humana, indispensáveis à vitalidade e à diversidade do património cultural da Humanidade.

Porque enquanto estas línguas continuarem a ser faladas, cantadas, escritas e recriadas pelas sucessivas gerações, continuará igualmente viva uma parte essencial da experiência histórica e humana que hoje designamos por Crioulidade.

Como nos ensinou Amílcar Cabral, devemos permanecer profundamente enraizados na nossa realidade e, ao mesmo tempo, abertos ao mundo.

Talvez seja precisamente essa a grande lição da experiência crioula. A demonstração de que é possível afirmar identidades sem erguer muros; preservar memórias sem ficar prisioneiro delas; honrar as diferenças sem renunciar à construção de um destino comum.

Num tempo marcado por fragmentações, polarizações e incertezas, esta é uma mensagem que ultrapassa largamente o espaço atlântico. É uma mensagem para o mundo.

Que este Encontro contribua para aprofundar o conhecimento, reforçar os laços entre os nossos povos, comunidades e diásporas e afirmar a Crioulidade não apenas como objeto de memória, mas também como fonte de inspiração para o futuro.

Porque a Crioulidade não pertence apenas ao passado. Pertence também ao futuro. Pertence a todos aqueles que acreditam que a diversidade pode ser uma força de criação, que o diálogo pode ser mais poderoso do que a divisão e que a humanidade avança quando é capaz de transformar as suas diferenças em pontes de entendimento, paz e cooperação.

É esta a mensagem que Cabo Verde hoje quer partilhar com o mundo: uma mensagem de memória, diversidade, diálogo e futuro.

É com esta convicção que declaro aberto o Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica.

Muito obrigado.