Cabo-verdianas, Cabo-verdianos,
Irmãs e Irmãos do Continente Africano e da Nossa Vasta Diáspora,
Minhas Senhoras e meus Senhores
Neste 25 de maio de 2026, celebramos o Dia de África não apenas como uma efeméride do calendário, mas como um momento solene de introspeção, compromisso e afirmação da nossa dignidade coletiva. Como Champion da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural e Patrono da Aliança da Década do Oceano, dirijo-me a vós com a consciência de que a salvaguarda da nossa herança está intrinsecamente ligada à sobrevivência e ao bem-estar do nosso povo.
O lema que nos convoca este ano, “Garantir a Disponibilidade Sustentável de Água e Sistemas de Saneamento Seguros para Alcançar a Agenda 2063”, não é um mero enunciado técnico ou um exercício de retórica geopolítica. A água é um recurso estratégico de desenvolvimento durável do nosso continente e do nosso país.
É, também, um elemento sagrado, sinónimo de vida, de purificação e de comunhão comunitária. Garantir o acesso à água e ao saneamento é, por isso, um imperativo moral de justiça social e um pilar inalienável para a preservação da concórdia entre as comunidades e da paz no mundo.
Não haverá paz duradoura onde subsistir a sede, nem haverá desenvolvimento genuíno onde a dignidade humana for comprometida pela ausência de saneamento seguro.
Ao olharmos para as metas da nossa Agenda 2063, a nossa maior responsabilidade política e académica reside em direcionar o foco para as populações mais desfavorecidas. A assimetria no acesso à água potável é uma das formas mais severas de exclusão.
Em Cabo Verde, as nossas vulnerabilidades insulares e as secas cíclicas amplificam este desafio, convocando-nos a agir com urgência e precisão científica. Devemos olhar de frente para as realidades que testam a nossa resiliência.
Destaco o caso emblemático da nossa querida Ilha Brava, que é um apelo pungente à nossa consciência coletiva e à ação governativa.
Nessa Ilha ainda persiste o drama silencioso da qualidade. A presença excessiva de flúor natural nas águas de nascente tem provocado uma elevada prevalência de fluorose dentária na sua população, afetando o esmalte e a estrutura dentária dos seus filhos. Este é um problema de saúde pública, de estética, de autoestima e de equidade social que não podemos normalizar.
A escassez e a instabilidadeestrutural também é motivo de preocupação. Para além da questão específica da qualidade, a Brava enfrenta, tal como as outras ilhas, o flagelo das secas crónicas e de fragilidades estruturais no abastecimento, resultando em ruturas frequentes na rede pública.
O clamor legítimo da Brava e de outros pontos do país por uma uma resolução definitiva da questão, não é um pedido de favor; é uma exigência de cidadania.
Financiamentos climáticos e parcerias internacionais devem ser urgentemente mobilizados para viabilizar políticas públicas que garantam água potável, segura e regular às comunidades mais vulneráveis, transformando o acesso à água num direito universal efetivo e não num privilégio geográfico.
Esta mesma semana em que celebramos o continente mãe será também o palco de um momento histórico para a nossa diplomacia cultural: o Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica, que decorrerá de 28 a 30 de maio.
Propomo-nos a celebrar e debater o contributo de África na Humanização do Atlântico, tendo como epicentro o sítio histórico da Cidade Velha, Património Mundial da Humanidade. Foi a partir deste ponto de “Diasporização Atlântica” que o encontro forçado de povos, culturas e saberes gerou a Crioulidade, uma matriz de resiliência, diálogo e tolerância.
África não foi apenas uma geografia de partida dolorosa; foi a geradora de uma nova humanidade que moldou as Américas, as Caraíbas e a Europa. A Crioulidade Atlântica representa a nossa capacidade de converter a violência em pontes de concórdia, demonstrando ao mundo que a diversidade é uma riqueza e a paz é uma construção coletiva assente no respeito mútuo.
Termino convocando a comunidade científica, os líderes políticos, a sociedade civil e os nossos parceiros de desenvolvimento a unirem esforços. Precisamos de uma verdadeira economia social da água, um modelo de gestão que coloque a tecnologia, como a dessalinização, ao serviço do desenvolvimento humano e da mitigação das desigualdades.
Que os valores morais da solidariedade africana orientem as nossas decisões. Que a resiliência dos homens e mulheres da ilha Brava e a memória viva da Cidade Velha nos inspirem a construir uma África próspera, justa e plenamente integrada, onde nenhum cidadão seja esquecido à margem do progresso.
Viva o Dia de África!
Viva a Crioulidade Atlântica!
Viva Cabo Verde!


