o Presidente da República condecorou, esta terça-feira,15, no Mindelo, os artistas plásticos Manuel Figueira,…

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S.E o Presidente da República condecorou, esta terça-feira,15, no Mindelo, os artistas plásticos Manuel Figueira, Luísa Queirós (a TP) e Bela Duarte, com a Primeira Classe da Medalha de Mérito, pelos relevantes serviços prestados enquanto fundadores da Cooperativa Resistência, e na recolha, produção e divulgação do artesanato cabo-verdiano. A cerimónia decorreu no Centro Nacional de Artesanato e Desing.
Discurso proferido por S.E. o Presidente da República:
Bela Duarte, Manuel Figueira e Luísa Queiroz não são meros nomes de gente, deixaram de ser sons que identificam pessoas, palavras que permitem distingui-los de outros. Passaram a ser um discurso, uma proposta, um enunciado. Como se existissem pessoas ou elas fossem criadas porque há já palavras que as nomeiam.
As suas vidas, a sua arte, há muito não lhes pertence. Há muito tempo foram desapropriados da sua produção, da sua criatividade, da sua energia. Cada um a seu modo, das profundezas da sua subjetividade dissolveu-se num Outro, emprestando um sublime sopro de originalidade a essa grandiosa construção que respiramos, que alimenta o nosso espírito, que nos humaniza e que, por vezes, nos faz pretender bordejar o divino.
A intervenção dos artistas foi acompanhada de uma perspectiva globalizante que abarcou a sintonização imediata com o querer, o sentir e o pulsar das gentes de S. Vicente, das pessoas de Cabo Verde, através da forma e das cores das telas de cada um, bem como da indagação permanente dos labirintos dessa interioridade.
Esses criadores aliaram, sempre, a magia da criação ao quotidiano imediato das pessoas, desvendaram nessas parcelas autênticas e originais, pedaços do universal ao ritmo do seu saber e da sua intuição, e, também, procuraram ir além, na tentativa de captar e partilhar a essência das coisas.

Minhas Senhoras e meus senhores,
Os motivos que nos trazem aqui hoje, a este belo e centenário palacete, no coração de Mindelo, prendem-se com aquilo que de mais nobre existe em nós, homens e mulheres destas ilhas, que é o amor pela nossa cultura e a paixão que nutrimos pelo ensino. E se estas paredes pudessem falar, muito teriam para contar sobre essa corrente da transmissão de conhecimento, essa passagem de testemunho dos mais velhos para as novas gerações, que neste preciso local vem ocorrendo, desde 1917, quando as portas do primeiro liceu de Cabo Verde se abriram pela primeira vez.
A transmissão de conhecimento e cultura, a recuperação das técnicas ancestrais e a divulgação dessa nossa arte popular, em forma de artesanato, foram também os motivos que orientaram um conjunto de artistas plásticos e professores de artes visuais, desta mesma cidade. O facto de serem todos professores e de conviverem com alunos de várias ilhas instigou neles essa vontade de sensibilizar e de iniciar uma campanha de recolha de conhecimentos valiosos e recuperar todo um conjunto de práticas e técnicas tradicionais, já quase desaparecidas, entre nós.
Souberam ler a oportunidade que o seu tempo e a História lhes proporcionava e do trabalho proveitoso que poderiam fazer num universo tão nosso, tão rico, que trazia a marca das nossas gentes, o traço do nosso quotidiano. Como dissemos, o Tempo, essa irrepreensível ficção por nós criada, também conta com os homens e as mulheres para a sua renovação permanente, para o surgimento de novas ideias e pespectivas, mudanças de atitudes. A Cooperativa Resistência, por eles fundada, em 1976 – há mais de 40 anos, portanto – e que nós evocamos, hoje, nesta cerimónia, resultou, nas palavras da já infelizmente desaparecida artista Luísa Queiroz, de uma ‘inspiração na resistência cultural deste povo».
Senhoras e senhores, caros artistas, amigos e amigas…

Estamos hoje aqui precisamente para homenagear esse movimento de resistência e de mudança, inspirado no saber tradicional dos nossos antepassados e norteado pela valorização do património artístico popular das ilhas, na pessoa destas figuras, a quem devemos a própria instituição onde nos encontramos. E foram estes três artistas plásticos e professores, Manuel Figueira, Luísa Queirós e Bela Duarte, apoiados ainda por Alexandrina Freitas, Mercedes Leite e Clementina Chantre, que criaram a Cooperativa Resistência, fundamental para esse trabalho de pesquisa e de recolha. Outros nomes deixariam também a sua arte e conhecimentos ligados a este movimento, como Nhô Griga, de Santo Antão, mestre da construção de teares e da tecelagem tradicional; Nha Joana e Nha Antónia, exímias cardadeiras, também de Santo Antão; Nhô Damásio, mestre tecelão, de Cutelo Gomes, na ilha de Santiago, mestre de pano fino – do ‘pano bitcho’ e do ‘pano de obra’.
A formação de artesãos, o levantamento e a recuperação de técnicas e de peças existentes pelas ilhas foram os grandes objectivos da Cooperativa. Mas também a introdução de formas inovadoras e técnicas de arte popular, como o batik e a tapeçaria, que entrariam no universo do artesanato cabo-verdiano. E hoje, mais de quatro décadas passadas – quase o mesmo tempo que levamos enquanto país soberano -, o fruto do seu labor e dedicação está à nossa volta; e não é apenas nas peças que podemos ver, por aqui expostas, mas sobretudo no legado de conhecimento transmitido aos seus alunos de então, hoje os mestres e professores, cujo trabalho também se confunde, actualmente, com o próprio Centro Nacional de Artesanato – a casa que também é sua e ajudam a manter.
Este momento de homenagem que aqui prestamos serve também para pensarmos no potencial e na importância do nosso artesanato, da nossa arte popular, na pequena economia das regiões, das nossas ilhas. Sabemos como ao artesanato é dado, de uma maneira geral, um significado mais restrito, o da designação dos processos manuais de feitura de objectos, por oposição ao termo ‘arte’, esse reservado para o campo dos sentidos. Fala-se do artesão como alguém que nunca se terá, de facto, especializado em arte ou frequentado uma escola. É a arte do povo, a fonte da cultura popular. Mas este artista popular tem um papel tão importante e crucial quanto o artista chamado ‘credenciado’ pela academia, para o todo que constitui a cultura de um povo. É ele que dedica os seus tempos livres, dias de folga, para produzir, sozinho ou com a ajuda da família, estes objectos preciosos que de imediato identificamos como sendo nossos, do nosso chão, do nosso mundo.
Por outro lado, e na linha do trabalho realizado pela Cooperativa Resistência, nesses finais dos anos 70, teremos de ver também o artesanato cabo-verdiano no contexto da pequena economia local, sobretudo enquanto factor de identidade cultural e, portanto, de elemento de atracção por parte de quem nos visita. Não podemos ignorar que todo o conhecimento da cultura local reforça a valorização dessa especificidade e o desenvolvimento da região em questão. E aqui estamos a falar do indivíduo, do homem e da mulher, como possuidor e repositório de uma tradição e de um contexto histórico que não pode desaparecer, sob pena de ficarmos mais pobres. O seu imaginário e simbolismo representam-nos a todos, são o espelho da herança de todos nós, dos nossos antepassados.
Já aqui frisámos a importância do artesanato e da arte popular, mas também temos de destacar a inovação, os novos desafios que se colocam ao conceito do objecto em si. E é assim que chegamos a novas ideias, novas perspectivas, mais sintonizadas com as novas realidades, e que estão contidas na palavra Design, que, em boa hora, se acrescentou a este Centro. Uma inovação, eu dizia, que os novos responsáveis por este espaço introduzem no seu funcionamento, quase quatro décadas depois da sua fundação, acertando o passo com a modernidade, sem o risco da descaracterização do imaginário social que lhe está na origem. Cabo Verde precisa dessa simbologia que é também uma forma de comunicação do nosso sentir, de relação íntima com o nosso espaço, da nossa afectividade, dos nossos valores, afinal peças e objectos diversos que são manifestações da nossa forma particular de estar no mundo.
E quando falamos em Design temos de referir, também, as tecnologias de comunicação, da internet, e o grande potencial que este mundo digital pode ter na divulgação do nosso artesanato, dos nossos artistas; divulgação junto de operadores turísticos no exterior, fazer parte de roteiros e de circuitos turísticos, no fundo, fazermos aquilo que é inevitável: valorizar o artesanato e a arte popular das nossas ilhas, unindo a tecnologia com a tradição. A história do artesanato, que esta casa tão bem representa, no caso de Cabo Verde, começa com a história do próprio homem e da necessidade de produção de bens de uso diário, e da criatividade que lhe foi sendo incorporada. É uma expressão da sensibilidade humana, perícia, de conservação da memória colectiva, e que junta a criatividade, beleza, resgatando todo um conjunto de valores humanos.
Minhas senhoras e meus senhores
Num período em que muitos duvidavam da viabilidade do Estado independente de Cabo Verde, em que se questionavam as possibilidades de sobrevivência do nosso país e, em resposta, se erguiam os novos alicerces, os membros da cooperativa, integrados nessa onda avassaladora, desfraldaram a bandeira da defesa e preservação cultural, como contribuição muito importante à reafirmação da nossa identidade.
Os artistas que fizeram da sua arte um verdadeiro modo de estar na vida, pesquisaram, lutaram, preservaram, ensinaram e, sobretudo, continuaram a criar e a celebrar a sua arte no país e no exterior.
Manuel, Bela e Luisa continuaram a levar a sua criação artística a diversas partes do mundo, assumindo-se como importante partícula cabo-verdiana da criação universal.
Pela minha voz, mais uma vez, o país agradece-vos.