21|FEVEREIRO|2018 – Mensagem de o Presidente da República, Jorge Carlos de Almeida Fonseca alusivo…

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21|FEVEREIRO|2018 – Mensagem de S.E. o Presidente da República, Jorge Carlos de Almeida Fonseca alusivo ao Dia Mundial da Língua

O Dia Mundial da Língua Materna, que se comemora hoje, é motivo para reflectirmos sobre um instrumento de comunicação, valiosíssimo, que usamos todos os dias, e que nos foi legado pelos nossos pais, nossos avós, nossos antepassados. A língua materna está para nós como o oxigénio para a Natureza; é o sangue que circula e une este corpo vivo, orgânico e multiforme, que é a Nação Cabo-verdiana, em toda a sua extensão. Por isso, aquilo que no dia a dia nos surge como algo de tão natural e absolutamente banal, contém toda a essência da nossa vida enquanto povo, da nossa própria existência, como se ela sempre tivesse existido, desde o início dos tempos.

A língua é um instrumento fundamental na comunicação entre os homens sendo, por isso, simultaneamente uma consequência e um importante factor de coesão das sociedades e das relações que estas estabelecem entre si.

Ela é indissociável da cultura da qual é uma das ferramentas base, realidade que concede à língua materna uma importância primordial, pois é através dela que as especificidades culturais se materializam.

A língua materna mais do que instrumento de comunicação entre pessoas que habitam o mesmo território ou que construíram uma relação histórica que ultrapassa o espaço um dado geográfico, como é o caso da nossa diáspora, é um elemento central na estruturação da pessoa.

No processo de construção da personalidade, estritamente ligado ao da socialização, ao mesmo tempo que os aspectos físicos evoluem, os relacionais e psicológicos se estruturam tendo por base o universo simbólico que é a língua que se aprende e se incorpora.

Mais do que algo instrumental a língua materna é parte integrante da pessoa.

A língua materna é uma criação nossa, moldada do encontro de todos as culturas que estão na base daquilo a que se pode chamar de cabo-verdianidade. Não existimos fora da Língua Materna. É o traço da nossa passagem pelo mundo, nas mais profundas manifestações culturais e artísticas do nosso espírito, na dor e na alegria, na vida e na morte, no entendimento do nosso espaço e projecção dos nossos sonhos.

A nossa língua materna tornou-se o espelho da nossa alma enquanto povo, repositório da nossa identidade. Ela é, hoje, o elo de ligação, o cordão umbilical das comunidades espalhadas pelo mundo e um símbolo incontornável de unidade nacional. É importante verificar como cada uma das nove ilhas criou, desenvolveu e enriqueceu a Língua Materna com o seu próprio falar, a sua visão micro e muito particular da vida e do mundo.

Uma língua plástica que, como uma luva, se foi adaptando, moldando-se, qual corpo vivo, à vivência das nossas ribeiras e cutelos, achadas e vales, cidades e lugarejos, de pescadores e agricultores a empresários e políticos. E é esta plasticidade, lá onde quer que ela seja falada, que lhe garante a vitalidade, insuflando-lhe a marca dos novos tempos, na música, nos espaços públicos, no exercício da cidadania e aprofundamento da democracia, na voz dos tribunos, na defesa dos valores, elevando-a a novos patamares.

Este é o ano da candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade, estilo musical pelo qual somos e esperamos vir a ser ainda mais conhecidos. E foi através da morna, cujo corpus é feito de língua materna, que nos demos a conhecer, fora das ilhas, graças à pena e inspiração dos nossos poetas. Mas também noutros estilos, como o batuque, a tchabeta, funaná, coladeira, colá, nessa nossa língua atlântica, nas nossas estórias tradicionais contadas no poial das casas, com que nos afirmamos, no dia a dia. Num mundo cada vez mais dominado por línguas internacionais e culturas impositivas de um pensamento único, a idiossincrasia e especificidade cultural de um povo, dada pela língua materna, é um valor-acrescentado e cada vez mais valorizado.

Mas cabe a nós, seus utilizadores, tudo fazer para garantir a sua perenidade, progresso e difusão, com pragmatismo e sentido das suas reais capacidades, na sociedade cabo-verdiana e não só. Esta é a mensagem que devemos partilhar, hoje, na passagem de mais esta efeméride, chamando a atenção para esta riqueza que possuímos e que, no fundo, nos resume, e continuará o barco nesta nossa viagem.

Contudo, num mundo em que os desafios nessa área são muito elevados e em que se prevê o desaparecimento de metade das sete mil línguas neste século, não devemos ignorar os desafios que temos pela frente.

Somos obrigados a associar a preservação e promoção da nossa língua, enquanto instrumento de afirmação cultural no país e na diáspora, com o desenvolvimento e o acesso a outras, com destaque para o português, que possibilitam a assunção plena da nossa vocação de cultura de permutas.

Entendo que as políticas que promovem os debates e os estudos em torno do desenvolvimento e da sistematização da nossa língua materna devem prosseguir com determinação e competência. Igualmente é fundamental que se atribua a maior importância ao ensino do português e das outras línguas não maternas com o objectivo de proporcionar aos cabo-verdianos instrumentos fundamentais à sua inserção num mundo cada mais globalizado e multicultural.