Discurso do Presidente da República de Cabo Verde, Sua Excelência Dr. Jorge Carlos de Almeida Fonseca, por ocasião do Dia do Professor Cabo-verdiano

9

Discurso do Presidente da República de Cabo Verde, Sua Excelência Dr. Jorge Carlos de Almeida Fonseca, por ocasião do Dia do Professor Cabo-verdiano
Calheta de São Miguel, 23 de Abril de 2018.

Excelentíssimos senhores,
Vereador de Educação da Câmara Municipal de São Miguel,
Delegado do Ministério da Educação em São Miguel,
Presidente do Sindicato dos Professores da Ilha de Santiago
Coordenador da CPLP Sindical da Educação,
Representante dos Sindicatos de Portugal e do Brasil
Chefe da Casa Civil,
Caros professores,
Minhas Senhoras e meus senhores,

As minhas primeiras palavras são dirigidas a todas as mulheres e homens que, em Cabo Verde, exercem a nobre função de professor.
No dia do professor cabo-verdiano, saúdo todos os docentes a quem o país entrega os filhos, de todas as idades, para serem ajudados a ter acesso ao conhecimento, a cultivar os valores que nos são muito caros, a fazer da nossa terra um país cada vez mais livre, mais próspero, mais justo e mais solidário.
Muito obrigado a todos os professores de Cabo-Verde.

Para mim é particularmente especial participar nas comemorações do Dia do Professor, profissão por que enveredei hás muitos anos e pela qual nutro o mais profundo respeito e afecto, porquanto tenho a consciência da sua vital importância na formação das gerações, sendo a mãe e talvez a mais nobre de todas as profissões, com contributos indispensáveis para o desenvolvimento do ser humano e das sociedades.
É por estas razões que, não hesitei em aceitar o honroso convite para me juntar a vós, professores da ilha de Santiago, e, por vosso intermédio, abraçar todos os professores do país.

Minhas Senhoras e meus Senhores,
É com muito prazer que realço o facto de as comemorações do Dia do Professor cabo-verdiano estar associado a dois importantes projectos promovidos pelo Presidente da República: a promoção da leitura “Ler Mais, Saber Mais”, e a prevenção do abuso do álcool, “Menos Álcool, Mais Vida”.
O projeto “Ler Mais Saber mais” está a promover, em colaboração com o Ministério da Educação, a II.ª Edição da Semana da Leitura. A semana começa hoje 23, também dia Internacional da Leitura, e termina a 27 do corrente mês de Abril. Ler mais significa saber mais e igualmente ser mais livre, cidadão mais inteiro.
O projecto “Menos Álcool, Mais Vida”, está a desenvolver importantes acções de informação e sensibilização, aliadas à promoção de medidas legislativas e de politica de combate a essa problemática que tem afectado grandemente a sociedade cabo-verdiana, inclusive no contexto educativo.

Minhas Senhoras e meus Senhores,
O facto do SIPROFIS ter associado a iniciativa presidencial “Menos Álcool Mais Vida” às comemorações, para além contribuir de forma clara para o combate a um dos principais males que afligem a nossa sociedade, revela uma grande preocupação com o bem-estar dos seus membros, não se cingindo a preocupações de índole laboral.
A esse respeito aproveito para saudar as duas centrais sindicais, a CCSL e UNTC-CS, que, desde a primeira hora, aderiram à iniciativa e têm mantido participação digna de registo.

Congratulo-me com o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação que proibiu a utilização de bebidas alcoólicas nos estabelecimentos e eventos promovidos nos contextos educativos. Igualmente a Direcção Geral da Inclusão Social e a Direcção Nacional da Administração Pública, com o apoio da Organização Mundial da Saúde, estão a desenvolver importantes acções de prevenção especialmente no contexto laboral, privilegiando o sector público, onde a maioria dos professores está incluída.

Minhas senhoras e meus Senhores,
Cada vez mais a Educação revela-se uma peça fundamental do edifício que queremos construir, da sociedade que queremos edificar das mulheres e homens que queremos e precisamos ser.

Em decorrência das transformações extremamente rápidas, de mudanças permanentes que, a toda hora, alteram todos os ambientes em que o homem se move, da vertigem da inovação e da relativização de quase tudo, o conceito de Educação adquire contornos cada vez mais imprecisos mas que não comprometem, pelo contrário adensam, a sua essencialidade nas sociedades actuais.

Educar hoje não será seguramente a mesma coisa do que quando muitos de nós nos sentamos nos bancos da escola para aprender os conceitos fundamentais nas diferentes áreas do conhecimento.

Também não é exatamente a mesma coisa do que quando os candidatos a professor iniciaram a sua formação, quando decidiram abraçar a missão de ensinar, de educar de moldar espíritos.

Num certo sentido podemos até dizer que existe uma certa contradição entre a Educação – que pressupõe alguma estabilidade, alguma permanência – e a dinâmica do mundo de hoje que transforma quase tudo em efémero, passageiro, provisório.

As noções de tempo e espaço, categorias balizadoras do devir das sociedades, das famílias e das próprias pessoas, conheceram relativizações tão acentuadas que as referências que tradicionalmente nelas se basearam, ficaram seriamente comprometidas.

Minhas senhoras e meus Senhores,
Essas estonteantes, profundas e permanentes transformações são de grande importância e encerram potencialidades inquestionáveis, ao lado de riscos muito acentuados que podem comprometer a felicidade das pessoas e a própria vida no nosso planeta.

Como educar para não permitir que esses riscos se concretizem ou que se situem em patamares compatíveis com a vida em sociedade e para que as imensas potencialidades que o conhecimento e as tecnologias encerram, sejam aproveitadas para construir um mundo mais humano, mais solidário, mais justo?

Se a própria Educação tem de fazer face a desafios tão importantes que, de certa forma, a colocam em causa, pelo menos nos moldes tradicionais, o que dizer do professor, pedra angular do sistema, sobre quem repousa a responsabilidade de ser a ponte entre as respostas possíveis e as pessoas?
Como posicionar-se num quadro em que a educação extrapolou a própria escola, ultrapassou a família, relativizou as instituições de ensino, para o bem e para o mal, e passou a ter o horizonte por fronteira?
Como ser professor num contexto em que o conhecimento sobre quase tudo está ao alcance de quase todos em quase todas as idades?

Provavelmente, caros amigos, a resposta mais adequada seja relegar para um plano relativamente secundário a sua condição de depositário e transmissor do conhecimento, assumindo mais efectivamente a condição de orientador que auxilia o outro a procurar, a investigar, a obter o conhecimento, a crescer e a amadurecer.
Essa postura deverá implicar que o professor tenha uma predisposição para investigar, para crescer e para amadurecer.

Caros Professores,
Minhas Senhoras e meus senhores,
Provavelmente, em diversas ocasiões o professor terá de antecipar as orientações oficiais, sob pena de não poder acompanhar o ritmo e a dinâmica acima referidos e de ser, por isso, ultrapassado pelos acontecimentos.
Num mundo em que grande parte da educação dos jovens já não ocorre no seio familiar, o professor deverá estar atento a esta realidade e redefinir a sua relação com a família, que, por sua vez, como sabemos, também, procura redefinir o seu papel neste mundo de mudanças muito intensas.

Neste quadro, o professor poderá ser obrigado a ter o importante papel de suprir algumas necessidades do aluno que a família, por razões diversas, não tem condições de preencher.
Como podemos verificar, esse professor, que estará em formação, terá, aliás já tem, um papel bem diferente do profissional tradicional. Contudo, convém não perder de vista que essa diferença poderá ser mais aparente do que real se o professor ao longo da sua carreira se assumiu mais como condutor de pessoas do que como depositário do saber.

Caras Professoras,
Caros Professores,
Dirigentes sindicais,
Minhas Senhoras e meus senhores,

Na actualidade assistimos a importantes esforços das autoridades no sentido de se proceder a reformas do sistema educativo, pois fica cada vez mais claro que, sem reformulações, o sistema não poderá acompanhar as grandes transformações no sector educativo a nível do mundial e nem constituir-se numa peça fortíssima no processo de desenvolvimento inclusivo do país.

Esperamos que as reformas que têm como um dos seus objetivos o aumento da escolaridade obrigatória, para além da adequação dos programas à realidade nacional e às necessidades do desenvolvimento, atinjam todos os objetivos preconizados.

Consideramos de toda importância a participação dos professores no processo em curso. Ela pode ser determinante porque permitirá que os professores contribuam com a sua experiência para o sucesso da reforma e porque com a sua participação poderá ter oportunidade de encontrar respostas para as indagações acima referidas, que no fundo são indagações do sistema.

A modernidade tem imposto desafios cada vez mais complexos e difíceis de superar para esta classe profissional que tem a árdua tarefa, não apenas de transmitir conhecimentos técnicos e científicos, mas acima de tudo de promover e treinar a busca, a construção, a descodificação e a utilização proficiente de conhecimento científico, filosófico e artístico, num contexto de grande proliferação e de profunda inconstância de conhecimentos e de informações. E, se as tecnologias de informação e comunicação são enormes aliadas nesse processo, o acesso e a eficaz utilização das mesmas ainda não constitui uma realidade efectiva em todos os contextos, tanto pela escassez de recursos, como pelas deficiências de capacidades nesse sentido.

Assim, para além da necessária preparação para o exercício da sua actividade profissional, cada vez mais, o professor precisa de uma enorme capacidade de criatividade e de adaptação ao seu contexto de intervenção para o cumprimento integral do seu papel pedagógico e social, de preparação para a vida em sociedade e para a realização de escolhas salutares a nível profissional, intelectual e emocional. Por conseguinte, a formação contínua, a nível pessoal e técnico, dos que se dedicam a esse ofício, é fundamental para a qualidade da educação, inclusive no que diz respeito aos hábitos de leitura, não apenas dos mais jovens, mas também para os profissionais, entre outros, particularmente aqueles que têm a importante missão de orientar e preparar os mais jovens ou inexperientes para enfrentarem os distintos desafios em diversas áreas. Eu diria que Rigor, ensino e professor são rima indispensável para um nosso futuro de verdadeiro progresso e bem-estar.

Nesse sentido, é muito oportuno que o Dia do Professor coincida com o Dia Mundial do Livro e dos Direitos dos Autores, data instituída pela Unesco em referência a renomados escritores como Miguel de Cervantes, falecido a 23 de Abril de 1616, ou William Shakespeare, cujo nascimento e morte também são assinalados na data de 23 de Abril.

Em Cabo Verde, congratulo-me com o facto de esta celebração também estar associada a uma figura incontornável da relativamente breve, mas muito significativa, história do nosso país, um dos mais proeminentes escritores, poeta e linguista do país, o professor Baltasar Lopes da Silva. Nascido exactamente na data desta efeméride, 23 de Abril, a sua vida e obra enalteceram o papel do professor e deixaram um valioso legado para o nosso país. Da incontestável relevância social, cultural e científica da Revista Claridade, de que ele foi um dos maiores mentores e que alimentou o importante movimento dos claridosos, iniciada na década de 1930, tendo sido fundamental na construção da identidade cultural cabo-verdiana, aos inestimáveis contributos para a literatura cabo-verdiana, através dos poemas, ensaios linguísticos e do célebre romance “Chiquinho” de 1947, com uma particular simbiose da língua portuguesa com o crioulo cabo-verdiano, Nhô Balta, como era conhecido, invoca os mais elevados valores e significados para o papel que o professor desempenha e a posição que deve ocupar nas nossas sociedades. Apela ao comprometimento dos professores para que se possa proporcionar uma educação de qualidade, direcionada para o desenvolvimento e para o bem-estar de todos.

Caros Professores,
Minhas Senhoras e meus senhores,
A valorização e o fortalecimento dos professores devem constituir uma das prioridades da agenda política do país, conferindo-lhes a devida atenção e consideração nas decisões e na elaboração de leis e programas referentes à educação, bem como no incremento da formação, de incentivos e meios nesse sentido, particularmente em determinados níveis de educação, como o pré-escolar, e em determinados territórios como São Nicolau ou Mosteiros onde, segundo os dados do INE-CV, há uma total falta de formação.

Deve haver uma forte aposta, tanto dos governos central e locais, como dos próprios professores, na qualificação científica e pedagógica contínua e a níveis cada mais graduados, por forma a alcançar a qualidade da educação que o país almeja.

Permitam-me, enfim, concluir com um poema de Baltasar Lopes da Silva, pela via do pseudónimo Osvaldo Alcântara:
O POEMA RESSACA
«Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
Venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
Venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
Venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
Venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detectores apropriados;
Volte tudo ao ponto de partida e venham as odes dos poetas;
Casem-se os poetas com a respiração do mundo;
Venham todos de braço dado na ronda dos pecadores, que as criaturas se façam criadores;
Venha tudo o que sinto que é verdade além do círculo embaciado da vidraça…
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar…
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos, mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores na linha de todas as batalhas.»

Felicito todos os professores cabo-verdianos e todas as entidades, nacionais e internacionais, que apoiam o desenvolvimento desta distinta profissão, fazendo um apelo para que que seja uma profissão cada vez mais dignificada e centrada na criação dos mais nobres valores e de capacidades pessoais e profissionais fulcrais para o desenvolvimento de todos, em todos os recantos do nosso país.
Muito obrigado pela vossa atenção.