08 | FEVEREIRO | 2018 DISCURSO DE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA ABERTURA DA…

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08 | FEVEREIRO | 2018 DISCURSO DE S.E. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA ABERTURA DA EXPOSIÇÃO DE ARTE, SÃO VICENTE PALÁCIO DO POVO

É com muito gosto que estou aqui hoje para presidir à abertura desta exposição tão rica e variada, contendo obras de arte do continente africano e do nosso país, nesta bela cidade de Mindelo e num espaço igualmente nobre e emblemático.

Reencontrar Mindelo neste início de ano, nas imediações de uma das festas mais marcantes desta cidade que é o Carnaval, neste riquíssimo cenário que combina fantasia e qualidade artística, é quase uma dádiva.

Mais do que honrado, sinto-me privilegiado por partilhar este momento único num ambiente que me é particularmente caro e pela transcendência que só a arte consegue emprestar.

Digamos, que nestas circunstâncias, a simbiose entre a realidade concreta, e a que advém da imaterialidade do impacto da criatividade em nós, aproxima-se da perfeição.

Insinua-se no nosso espirito uma inquietante dúvida: em que medida somos transportados para um mundo outro, ou somos apenas conduzidos, pelo sopro invisível dos artistas que esculpem, criam e moldam a nossa alma, a uma relação nova com o nosso mundo?

A cultura e a arte (atrever-me-ia a acrescentar: A poesia) não são luxo, são componentes essenciais da nossa humanidade. É por seu intermédio que nos destacamos da natureza, que nos elevamos a alturas que julgávamos inatingíveis. São elementos essenciais da nossa originalidade, traços que nos identificam e nos distinguem dos outros, mas, simultaneamente, nos fazem parte de todos os Outros, porque são expressão parcial do universal.

Encontramo-nos, aqui e agora, perante Arte (com maiúscula) perante Cultura (com maiúscula).

Por isso que – e efectuamos um voo de regresso a um manifesto de 1935 – assumimos ainda a asserção de que … «colocar a arte e a poesia ao serviço exclusivo de uma ideia, seja ela em si mesma tão entusiasmante quanto é possível sê-lo, seria condená-las a imobilizarem-se a breve prazo, redundaria em metê-las por um caminho sem saída».

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Como é sabido, as artes plásticas são o terceiro pé, se quisermos, dessa caldeira da cultura cabo-verdiana, a par da literatura e da música. Mais contida e menos exposta, e com um ritmo de produção diferente destas últimas, por razões óbvias, as artes plásticas em Cabo Verde construíram, desde cedo, o seu próprio percurso, no seu próprio ritmo, procurando uma linguagem e um espaço de realização em plena sintonia com o desabrochar do país, com os seus momentos históricos, mais visível nas últimas quatro décadas.

A maioria dos nossos pintores, como grande parte dos que aqui se encontram representados, mergulharam no quotidiano das ilhas ou dele partiram, em voos de uma criatividade extravasante e transfronteiriça, inspirada em latitudes e modelos mais complexos, trazendo para as suas telas a reinvenção do solo comum ou de uma mais ampla condição humana. Uma expressão de complementaridade da identidade das ilhas e do ser humano, como um todo. Nenhum povo pode existir sem arte, como sabemos. Por mais rústica e modesta que esta seja, será sempre rica enquanto memória existencial, espelho da sua passagem pelo mundo e o reflexo dos seus mitos, sonhos, desejos e ansiedades. Esta é a linguagem secreta dos povos, o registo ou impressão digital mais indelével de uma cultura, no espaço e no tempo. Culturas que nascem e morrem, como é sabido, como as civilizações, cujas vozes ecoam no tempo, através do lastro de uma gesta ou do fino traço dos seus artistas.

Mas também temos aqui uma mostra importante de peças de diferentes proveniências, de diversas regiões do continente africano. Objectos de uso corrente nas suas culturas de origem, que moldaram rituais de iniciação ou de passagem, de nascimento ou de morte, da mais ancestral cosmogonia ou mito da criação, mas que há muito deixaram essa sua função social e conquistaram a admiração de especialistas e público amante da arte.

Akuaba, a designação deste projecto de museu de arte – reflexo de um longo e laborioso trabalho do senhor Carlos Duarte e Silva, coleccionador apaixonado e empresário mindelense – é uma palavra cuja origem está, igualmente, na nossa ancestralidade. Significa uma boneca, em termos mais simples, na tradição do povo Ashanti, da região do Gana. Conta a lenda que uma mulher infértil, de nome Akua, se dirigiu a um curandeiro pedindo-lhe ajuda. Este ter-lhe-á dito para fazer um boneco, uma pequena criança, em madeira, e passeá-la às costas, como se de verdadeira tratasse. Toda a aldeia gozava com a mulher e foi assim que o termo ‘Akua aba’ – o filho de Akua – nasceu. Mas o certo é que, pouco tempo depois, a mulher deu à luz uma bela menina e o boneco de madeira, às costas, tornou-se um símbolo de esperança para todas as mulheres inférteis da região. Inauguramos, aqui, como vimos, objectos de arte com uma vida própria, para além do mero lado estético, e que são repositórios de uma simbologia antiga, que transmite esperança e sentido de comunidade.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Para além do reconhecimento aos artistas nacionais aqui expostos, neste belo Palácio do Povo, património de São Vicente e de Cabo Verde, vai uma palavra de agradecimento aos organizadores desta exposição, que traz à liça, também, a questão da importância dos museus no panorama da formação cultural, no nosso país. Falamos de espaços que promovem a tolerância, a compreensão, bem como a salvaguarda do património e da memória colectiva, e que devem fazer parte integrante das nossas vidas, enquanto comunidade. Espaços de encontro e reflexão indispensáveis ao diálogo com o nosso próprio sentido de existência, e de afirmação no mundo, pois que a riqueza das nações também se mede pela riqueza cultural. E é em espaços como este, que ganhamos a luta contra o tempo e o esquecimento, que recuperamos os nossos laços tangíveis com o passado, sem o qual, como sabemos, não existimos.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Confesso que, para além do prazer de usufruir deste momento especial, invade-me um particular sentimento de comunhão com o Povo desta ilha pois, pelas mãos da Câmara da Municipal, vivencio hoje a resposta ao do gesto que, há algum tempo tive, de colocar o Palácio do Povo à disposição de S. Vicente.

Este evento tem para mim um tal significado. Através desta suculenta exposição, o Município e as pessoas de S.Vicente dizem-me que assumem integralmente o compromisso de fazer deste sumptuoso edifício Palácio (também) um espaço de promoção permanente da arte e da cultura.

Direi que, através deste hino à criatividade, reforçamos e reafirmamos o pacto entre o Presidente da República, o Município e os cidadãos de S.Vicente.