Discurso de Sua Excelência, o Presidente da República, Dr. José Maria Neves, por ocasião da abertura do Colóquio Centenário de Amílcar Cabral

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Ilha do Sal, 10 de junho de 2024

Este país, Cabo Verde, é um país extraordinariamente rico. De há muito, tenho ficado constrangido quando se diz que Cabo Verde é pobre. Basta ouvir o (Silvestre) Fonseca aqui, ao abrir este Colóquio, e ouvir a forma como na ponta dos seus dedos expressa a música de Cabo Verde. Este Estado oceânico e também esta Nação Diaspórica, este Estado transnacional. E podemos, por aí, ver a extraordinária riqueza que é Cabo Verde.

Saúdo, com o mais alto sentido do Estado, toda a gesta da Libertação Nacional, processo em prol da Independência, da criação e constituição do Estado de Direito Democrático e da transformação pelo desenvolvimento, capaz de dar a cada um a sua gota de água. Assim como saúdo o gesto da memória e da valorização da história e deste modo de revisitar Amílcar Cabral, mormente no seu centenário, como o nosso dever de cidadania.

No momento crucial do nosso percurso enquanto Estado Independente, Cabo Verde chama-nos a sermos cidadãos de corpo inteiro, no gozo pleno das nossas liberdades civis e políticas, e participantes ativos na definição de políticas, na governança e na prestação de contas.

Nunca como hoje, Cabo Verde e a África inteira precisaram tanto da nossa generosidade, do nosso engajamento cívico e de uma total entrega à causa da liberdade e do desenvolvimento.

Saúdo, por isso, com elevado entusiasmo, o Colóquio Centenário de Amílcar Cabral promovido pela sociedade civil, nas pessoas de Filinto Elísio, Marcia Souto e Inocência Amada, e organizado pela Rosa de Porcelana Editora. Aditando as minhas felicitações pela capacidade de ousar e de realizar, permitindo-nos estar juntos aqui e agora, não apenas para celebrar Amílcar Cabral, mas sobre ele refletir e debater tanto quanto possível cientificamente, assumir o seu repto, parte do seu extraordinário legado “de aprender sempre, pensar com a nossa própria cabeça”, premissa transcendente e que resume a nossa capacidade de estarmos perante o tempo.

Não coíbo de citar o poeta João Vário, ao vivenciar este momento, que rezava “há muito passado no estar aqui com o tempo, fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede”.

O programa deste colóquio, releva a intencionalidade de valorizar a obra legada por Amílcar Cabral, que para além de figura singular e essencial da história contemporânea, localizada no século XX, foi um africano extraordinário, um bissau-guineense e um cabo-verdiano, com iluminação suficiente para assumir a razão crítica do colonialismo e a razão crítica da libertação, albergando a sua utopia, a realização, o devir das soberanias, das democracias e das cidadanias, das prosperidades e dos humanismos, que os povos devem poder ter acesso e partilhar.

A razão crítica filosofal, que em síntese Nelson Mandela diria, já foi aqui citado pelo engenheiro Domingos Simões Pereira, “o maior foi Amílcar Cabral, ora enfileirado no panteão dos grandes líderes da humanidade”. Esta intencionalidade de, perante o tempo ou mesmo a temporalidade, olharmos Cabral sobre o prisma do presente e do futuro, com novas colocações e outros recortes, é uma ousadia cidadã positiva que muito me apraz, louvar, em nome do povo de Cabo Verde.

Os tempos muito difíceis e complexos de hoje, marcados por múltiplas crises, as guerras geopolíticas, a emergência climática, as migrações, o crescimento dos extremismos e do populismo, exigem capacidade de aprendizagem e inteligência adaptativa. O nosso dever é, com Cabral, apelar ao diálogo, à solução negociada dos conflitos, à paz, à amizade, à fraternidade. Nada justifica, nem a história, a invasão de outros Estados.

Nada justifica, nem os extremismos de todos os lados, a destruição de um povo. Fundados na Constituição da República, solidarizamo-nos com o povo ucraniano, e desejamos ardentemente a construção de um roteiro para a paz, envolvendo todas as partes relevantes deste conflito.

Também condenamos veementemente os atos terroristas de 7 de outubro de 2023, perpetrados pelo Hamas, assim como a reação desproporcionada de Israel, com total desrespeito pelo Direito Internacional e pelos Direitos Humanos.

Somos pelas liberdades civis e políticas dos palestinianos, somos humanistas! Somos pela coexistência dos dois Estados, na base da Carta das Nações Unidas, do direito à autodeterminação do povo palestiniano. Repito, nada justifica a desumanidade desta guerra.

Com Cabral, aprendemos a lutar pela paz, pela liberdade, pela possibilidade de escolhermos o nosso destino com as nossas próprias mãos. Estar no Sal, ilha que aporta o maior aeroporto internacional de Cabo Verde, levando o nome de Amílcar Cabral, e oficiar este momento com todos vós é uma glória, como gloriosa a coincidência de estarmos a fazê-lo no dia 10 de junho, efeméride que também comemora o quinto centenário do nascimento do poeta Luís Vaz de Camões, vate português, tal como Cabral, de porte universal e patrono da língua portuguesa, que Cabral tanto valorizava e que pretendeu que se promovesse a par das outras nossas línguas nacionais.

Estar no Sal depois da jornada sobre a Década e do Oceano, e tomar atento do conto de Amílcar Cabral escrito nos seus 19 anos, intitulado Fidemar, que será matéria de um dos ilustres participantes deste colóquio, é um redobrado regozijo e, mais do que isso, um desafio a todos nós para o aprofundamento sobre a vida e obra deste homem que continua a ser o capital de afirmação no mundo dos nossos países. Fidemar, filho do mar, é a condição da nossa essencialidade cabo-verdiana, africana, crioula, insular e diaspórica que Cabral vaticinou ainda em tenra juventude.

Quero desejar sucessos ao colóquio e adejar que os trabalhos sejam produtivos com ciência e cultura, com resultados que cumpram o vaticínio do bíblico Eclesiastes, tão bem poetizado pelo nosso João Vário, em como “ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil de indagar que vamos morrer e um dia, se o tempo for deles e a memória de outros, havemos de ser úteis, como mortos há muito”.

Ou então, Luís Vaz de Camões em, “E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía”. Ou ainda, Amílcar Cabral em, “Sai para a luta, a vida é luta, os homens lá fora chamam por ti e tu, poesia, és também um homem. Ama as poesias de todo o mundo, ama os homens, solta os teus poemas para todas as raças, para todas as coisas”.

Amílcar Cabral, quero dizer-te que continuamos a sonhar com uma África livre, unida, forte e próspera, que continuamos a sonhar com um Cabo Verde moderno e cosmopolita, que continuamos a sonhar com um mundo mais humano, desracializado, ou seja, para todas as raças, fundado na liberdade, na igualdade e na fraternidade. Um bem-haja a todos, um bem-haja o Colóquio Centenário de Amílcar Cabral! 

Obrigado!