DISCURSO DE ENCERRAMENTO DO 1º ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

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DISCURSO DE ENCERRAMENTO DO 1º ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA FORA DE PORTUGAL, PRAIA, ASSEMBLEIA NACIONAL
12 DE JANEIRO DE 2019.

Minhas Senhoras e meus Senhores,
Como todos pudemos confirmar, hoje, neste singular mas comovente encontro de antigos estudantes e amigos, desta mui antiga e magnífica universidade, Coimbra tem e terá sempre um significado especial nos nossos corações. Na verdade, foi um encontro entre todos aqueles que conheceram, vivenciaram e interiorizaram, na suas respectivas gerações, um espírito académico único e abrangente, cuja reverberação ultrapassa fronteiras, credos, nacionalidades, ideologias, género. Simbólica é, também, a organização deste 1º Encontro da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra fora de Portugal, na Cidade da Praia, em Cabo Verde. Assim como ter escolhido como parceira a Universidade de Cabo Verde, instituição pública que congrega o maior número de estudantes universitários no nosso país.

É na universidade que chegamos no final da adolescência. Para quase todos, é nossa segunda casa, depois do lar- dos nossos pais e irmãos. É onde descobrimos, ao jeito de poeta imberbe mas empenhado, amores-sem-dicionários em saxofones de espuma, e sonhamos «poemas de amanhã», onde iniciamos amizades de uma vida e camaradagem para futuras lutas e auguramos flores na busca de seu encanto de crianças. É onde descobrimos o outro, no sentido daquele que vem de outras terras, outras paragens, longínquas na distância ou na cultura, do campo, das cidades, das ilhas, de outros continentes, com outras línguas, sonhos e saberes. É aqui que, se não descobrimos, aprofundamos ideologias, políticas ou não, crenças, aprendemos as diferenças da Humanidade, as suas utopias. É aqui que apanhamos o comboio da História, as correntes do pensamento filosófico e científico, que abraçamos causas para uma vida. É aqui que tecemos os nossos sonhos, nossas ambições de mudar o mundo, ou a trajectória dos nossos povos ou países. É aqui que aprendemos a verdadeira essência e o valor da palavra liberdade e da democracia. É onde encontramos valores seculares e a herança daqueles que vieram antes de nós, que passearam a batina pelas arcadas e escadarias, que deram vida às repúblicas cujo espaço nos coube, onde também conspiramos, ao som do jazz, do fado, da morna, ou criatividade de Breton, dos surrealistas e da Paris de Truffaut ou Roma de Fellini, ou nos deleitávamos com as propostas do «teatro pobre», de Grotowski (o CITAC), ou as novidades loucas de Guy Débord e a sua «Société du spetacle», através de Amaral Dias.

De alguma forma, o percurso de um «tempo inocente» («Amar não era amar. Era saudade do amor» – Manuel Alegre, Romance do tempo inocente)
A sua heterogeneidade social acolheu no seu seio várias gerações de estudantes destas ilhas e da África de língua oficial portuguesa, num tempo em que eram poucos aqueles que, terminados os seus estudos liceais, conseguiam uma bolsa para seguirem para o ensino superior. Tão poucos que, no meu ano recordo muito bem ainda dos seus nomes. Quando ali chegámos, nos finais de sessenta, mais precisamente, em finais de 1967, um pouco antes do Maio de 68 e da marcante crise de 1969, em que eu e muitos outros estudantes cabo-verdianos e africanos, no geral, nos envolvemos de corpo e alma.

Era o nosso encontro com a História, como referi acima, as convulsões sociais e políticas próprias do avanço das nossas sociedades e a busca por um mundo mais livre e mais justo. O posicionamento contra a Guerra Colonial. A Universidade de Coimbra também funcionaria como espaço de intercâmbio de ideias e polo aglutinador para os jovens estudantes que haveriam de se juntar aos movimentos de libertação das então colónias portuguesas, prosseguindo os ideais de independência e de liberdade.

Alguns de nós pagariam pela ousadia, com a detenção ou a suspensão da universidade, alargada às demais universidades, como foi o meu caso, obrigando-me a terminar as disciplinas do último ano do curso de Direito em Lisboa, alguns anos depois. No entanto, posso dizer que a passagem pela Universidade de Coimbra me proporcionou os primeiros contactos com uma outra vida, novas realidades, o acesso e a fruição de diversas formas de arte, como a música, o teatro e o cinema, na companhia de estudantes e quadros jovens portugueses e africanos também, numa atmosfera geral de radicalidade juvenil e estética, sobremaneira, em grupos mais ou menos formalizados, a par da participação em núcleos ligados à luta pelo ideário anticolonial independentista. Eu era o jovem, quase adolescente magricela, acabadinho de chegar das ilhas e ainda ‘verde’, inexperiente, em muitas áreas, a quem tiveram que explicar boa parte delas.
Mas a Universidade de Coimbra também contribuiu muito para a formação dos primeiros quadros superiores, que iriam ter o destino do Cabo Verde independente nas suas mãos. Engenheiros, médicos, advogados, professores, juízes, muito antes de Lisboa ou de outra instituição de ensino superior portuguesa, saíram de Coimbra, juntando-se aos que chegavam de outras paragens. E nas décadas mais recentes, após a nossa independência, vemos como estudantes cabo-verdianos continuaram a procurar esta vetusta universidade para a sua formação, mantendo a tradição e aumentando a nossa comunidade estudantil, nesta emblemática cidade.

Assim, é com enorme prazer que testemunhámos as várias acções constantes do programa deste simbólico 1º Encontro da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra fora de Portugal: palestras, apresentação de livros, homenagens, exposição fotográfica, testemunhos valiosos de estudantes, que irão, de certeza, projectar ainda mais esta comunhão de valores e ideais adquiridos na flor da juventude. Um espírito académico, agora mantido vivo em forma de associativismo, agregando as diferentes gerações de diferentes países. Tenho a certeza que deste convívio sairão, igualmente, novas ideias e formas de fazer do legado da Universidade Coimbra o exemplo de património afectivo e rico em valores de cidadania, liberdade e democracia.

Por isso, congratulo-me com esta nobre iniciativa e faço votos para que a Associação continue a levar esta confraternização, em encontros como este, nos nossos países africanos e não só, onde a solidariedade e o espírito contestatário académico ainda são motor de mudança de mentalidades e chama do sonho de um mundo mais justo e mais equilibrado.