Discurso do Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca Sessão de Abertura e participação no Festival Literário Internacional de Óbidos – FOLIO, Edição 2019 – Óbidos – Portugal 10 de Outubro de 2019

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Discurso do Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca na Sessão de Abertura e participação no Festival Literário Internacional de Óbidos – FOLIO, Edição 2019 – Óbidos – Portugal
10 de Outubro de 2019

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É com enorme prazer que aqui estou, hoje, nesta belíssima e emblemática vila de Óbidos, declarada Cidade Literária, pela UNESCO, e terra do autor de O amante japonês, para fazer algo que me é muito caro e muita satisfação me dá, que é participar na inauguração, abertura de um certame literário. Este é um privilégio que se tem quando se é Presidente da República e também amante das letras. Tenho-o feito no meu país, e um pouco pelo estrangeiro. É que não se me cola à pele, de modo nenhum, o teor de metediça carta de Vaché a Breton: «Rien ne vous tue un homme comme d’ être obligé de représenter un pays».

Confesso que é um acto que renova sempre o gosto pelas letras, me dá uma certa alegria, tratando-se de livros, editores, escritores, público leitor interessado nestas coisas da linguagem e da imaginação, do sonho e do espírito, que procura manter e conservar o seu lugar, num mundo cada vez mais complexo. Como dizia Thomas Love Peackock « um poeta, nos tempos que correm, é uma espécie de bárbaro numa comunidade civilizada».
Repito que foi com muito gosto que aceitei o convite do senhor Presidente da Câmara para estar aqui neste que é o dia do arranque do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, focado na cultural literária e musical, a coberto das magníficas e seculares muralhas desta vila.
É sempre com muita expectativa e prazer quando vemos na programação sessões de poesia, palestras, conferências, entrevistas, mesas onde figuras importantes da literatura irão debater temas de grande profundidade, questões ligadas a esta arte da escrita.

E é uma grande oportunidade para que o público leitor possa ver de perto os escritores que admira e chegar mesmo a um momento de conversa com eles.
Na verdade, quando se chega a esta vila é a primeira coisa em que pensamos: nos moradores, uns verdadeiros privilegiados, no seu envolvimento com este festival, e que é uma componente importante da valorização da literatura e do próprio turismo local.
A imersão nos livros é igualmente caminho aberto para outras viagens. A festa cultural também é feita do entrelaçamento com a dimensão histórica, social e cultural desta nobre localidade.

Outra vertente, sempre importante, nestes encontros, é o intercâmbio cultural, as experiências que irão ser vividas, nos próximos dias, pelos muitos participantes no festival, e que é sempre de inestimável valor.
E como testemunhas, teremos o público leitor, dando a sua ajuda na recuperação do valor e do papel do livro, na vida quotidiana. Em Cabo Verde, no meu país, temos estado muito atentos ao fenómeno da aparente perda do hábito de leitura, desenvolvendo acções de sensibilização e de estímulo, pelas ilhas.

Todos estamos conscientes de que o incentivo à escrita e à leitura, para além de instrumento pedagógico que aproxima pessoas, é condição essencial para o aprofundamento da liberdade e da cidadania.
Os festivais internacionais de literatura, enquanto ponto de encontro, de intercâmbio de leitores, autores, editores, jornalistas, críticos, agentes culturais, são também espaços de pluralidade e cada vez mais indispensáveis a este sector da economia. Felizmente, os encontros anuais de escritores, que passámos também a ter, em Cabo Verde, nos últimos anos, trouxeram a literatura e os livros para a agenda mediática, sendo um deles o Festival de Literatura Mundo, do Sal, que realiza, nestes primeiros dias, aqui na FOLIO,uma sua extensão.

Se os festivais são uma oportunidade para ampliar os conhecimentos sobre livros e as novidades no mercado editorial ou ver de perto celebridades do mundo literário, também o são para a valorização e a promoção da própria língua portuguesa. Apesar de ser o FOLIO um festival internacional, é nesta língua em que a grande parte das conversas e dos debates irá decorrer. Uma língua que nos estruturou e na qual nos tornámos naquilo que somos, fazendo dela parte do nosso mundo, o sal das nossas vidas e miradouro para os mares que nos circundam. Uma língua que nos permitiu alcançar conhecimentos fundamentais e valores universais, ambiciosa, que deu origem a uma Comunidade de povos, cujas vontades e sonhos se comunicam e procuram encontrar os melhores caminhos para o bem-estar comum.
A CPLP é um espaço linguístico e cultural que se vem afirmando cada vez mais e que ambiciona ir mais além da existência de facto; que produz também literatura e conhecimento, e projecta e desenha o melhor futuro para os seus povos.
Escritores e artistas, na verdade, são um dos pilares que mais sustentam essa ideia de uma CPLP feita de povos para os povos, uma Comunidade solidária a que Cabo Verde preside, no biénio 2018/2020.

A mobilidade das pessoas, no seu seio – um dos objectivos propostos pela nossa presidência – tem os seus principais protagonistas, como sejam os escritores e os artistas, os verdadeiros obreiros deste espaço em que a língua comum se encarrega da comunicação e aprofundamento do seu desiderato. E o caminho que devemos trilhar passa por estender pontes entre os nossos países, para que os fazedores da cultura, os criadores, artistas, promotores, agentes culturais, para uma livre circulação de todos e dos bens culturais. As nossas sociedades são ricas culturalmente e é pelo núcleo sólido formado pela pintura, artesanato, moda, literatura, música, teatro, cinema, dança, que a Comunidade Lusófona se poderá também afirmar no mundo.
Através desta língua comum construímos o nosso imaginário literário,idealizámos o nosso futuro, escrevemos a poesia do nosso chão. Na poeira do tempo, na prosa e nos versos, decantámos o amor e celebrámos conquistas, pessoais e colectivas. Uma língua, é preciso lembrar, que deu à luz Sophia de Mello Breyner e Teixeira de Sousa, cujo centenário celebrámos ainda há pouco, mas também Arménio Vieira e Ruy Duarte de Carvalho, Guimarães Rosa e Mia Couto: a mesma língua, diferentes latitudes, a mesma ânsia pela palavra escrita.

Impregnados de literatura e pelo espírito do lugar, da vila de Óbidos, desta bela região da Extremadura portuguesa, os escritores irão falar da escrita, dessa arte perigosa, feita de abandonos e de obscuridades. Uma arte que nos leva a questionar se, em verdade, há palavras que antecipam as coisas que(depois) nomeiam, se, ao invés de sermos nós a criar o livro, não é o próprio livro –conjunto de símbolos mortos – assevera-nos Jorge Luis Borges – que nos visita, à noite, na nossa mesa de trabalho ou nos sonhos, seduzindo-nos pelo cheiro da sua tinta e levando-nos com ele, para que, então, procedamos à ressurreição das palavras – deixando, assim, de se mostrarem indefesas – , através dos pedaços da vida e do mistério inteiro do embevecido destino das coisas. Um insinuado destino; um atrevido orgasmo, miúdo e sopesado; o charme discreto de um dicionário; um relógio («… dieu sinistre, effrayant,impassible…» – Baudelaire: «Horloge», in Les fleurs du mal).
Procurar responder ao indizível, encontrá-lo, moldá-lo como artesãos da própria sombra interior, matá-la e ressuscitá-la quantas vezes for necessário (não precisando cada um de nós de ser exactamente um Desnos).

O tempo e o medo sobrevoam o festival, enchem-no. Sofistica-se o medo,a um tempo que se dá a sofisticação dos meios de opressão, colectiva e individual.
Queremos, no entanto, acreditar que se refinam igualmente as respostas e que não há medo, nenhum «medo necessário», capaz de triunfar, em definitivo, sobre a escrita livre, sobre a Liberdade. Acabariam por decepá-lo as sílabas e os sons, juntos, em revolta, no momento certo. Nem sequer as despóticas travessuras de Eros, nem o medo de nós mesmos, de estarmos vivos, o medo dos nossos deuses e demónios. Sim, meus caros amigos, há, ainda, o medo que se diz estar sempre por detrás do perfeccionismo; o de dizer aos outros o que penso deles e, sobretudo, de mim. Medo e incomodidade. Medo da liberdade que atravessa e me devaneia o espírito e a mente, por vezes devassando-os. Palavra! Por vezes pergunto-me: de que vale a possibilidade poética de controlar e influenciar o finito? E respondemos: Triste, desesperante e inócua possibilidade!. Há o medo paterno de Kafka, a pergunta de Artaud a André Masson («Não tem medo de apertar a mão a um empestado?»), a dúvida existencial de Marguerite Duras perante a morte («não sei quase nada desde que cheguei ao mar»). Sim, meus caros amigos, mesmo os cépticos e doridos versos do cabo-verdiano Mário Fonseca, que, a seguir, vos deixo, acabam por relevar do simples, bem que sublime exercício do fingimento poético, da intencionada exacerbação estética – afinal, da liberdade do criador:«Compagnons du temps jadis: Convancus et superbes comme des dieux/Mês compagnons ô mês fous amis/Que nous étions épiques au temps héroique/Où c’ était dans l’île sous les fers inique/La poésie et la liberte ou la mort!/
O temps ô muses maigres ô mês fous amis/Rangés et maintenant sceptiques/Dites pourquoi mais pourquoi nom de Dieu
Ne sommes-nous pas morts/Au temps héroique où nous étions épiques?»
(Mário Fonseca, «L’ odoriférante evidence de soleil qu’est une orange»).

São festivais como este, também, uma espécie de microcosmos, com uma função a cumprir, que passa por promover os escritores, colocá-los em sintonia com o público, na esperança de que alguma tendência se declare ou alguma frase ou ideia mais radical cause uma irrupção nos espíritos, para o contentamento de todos, naturalmente. O que nos compraz é que, nos próximos dias, em tendas ou a céu aberto, falar-se-á muito de livros, de autores, da poética possível da vida, ouvir-se-á música, muita música, num momento em que a morna se apresenta como candidata a património imaterial da humanidade. Criando, no tempo da sua duração, essa identidade comum, espécie de República das Letras e dos Sons, sob o cintilante estandarte da Liberdade.

Cito, enfim, Shelley, poeta romântico inglês, a quem inquietou bastante a função da literatura, da poesia, na vida das pessoas, no mundo, e que, há quase 200 anos, disse « os poetas (e aqui estariam incluídos todos os escritores, de uma forma geral) são o espelho de sombras gigantescas que o futuro projecta no nosso presente, trombetas que conduzem à batalha e que não sentem nada daquilo que inspiram, influência que não é provocada por movimentos (…) E por poderem imaginar uma ordem melhor, alternativa, para as coisas e tentar expressá-la, são eles os revolucionários, os inovadores e os «legisladores do mundo não reconhecidos.» Ainda que não possam, creio,proclamar, com a certeza de Paracelso – não terão sido objecto dos cuidados dos monges do mosteiro de Santo André, na Saboia -. ,«sei que há um Caminho» ou estejam bem cientes de que «a poesia é “crítica de vida” quase tanto quanto o ferro aquecido ao rubro uma crítica do fogo» (Ezra Pound).

Um bom festival para todos!
Muito obrigado.